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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Na solidão da velhice

«A velhice extrema, pensei, ou é uma decadência sem sentido ou uma inconsciência sem explicação. Eis um homem que viu morrer ou desaparecer quase todos à sua volta; que sabe que vai morrer em breve; que vive sozinho numa terra onde já ninguém mais vive e que tem, como companhias mais próximas de um ser humano, um cachorro, as galinhas que cria para matar quando precisa de comer, um porco e um peru qye engorda paras as minhas visitas. E, todavia, está preso às notícias de um mundo que desconhece, onde jamais viverá e que não deve fazer sentido algum para ele!»

"Madrugada suja", Miguel Sousa Tavares

E às vezes é tão simples fazê-los felizes

   Ontem fui visitar um casal de utentes de um dos nossos  centros, tal como é habitual. Ao chegar a casa deles encontrei-os tristes, aborrecidos e mesmo chateados um com o outro. O motivo? Misteriosamente, a televisão deles tinha avariado na véspera. Ora, sendo pessoas com mais de 80anos, estava tudo pronto para chamar um táxi e levar o aparelho a um técnico qualquer que o prometia arranjar. Não sei se foi pela tristeza daquelas duas pessoas que já conheço tão bem, se pela certeza de que iriam gastar um dinheirão entre táxis e técnicos, pedi para dar uma olhadela na televisão. O Sr. V. ficoou muito desconfiado e ainda resmungou com a esposa por me ter dito que a televisão estava avariada, mas a sorte esteve do meu lado e 5 minutos depois estava tudo operacional e com os 4 canais a darem perfeitamente os seus programas depressivos da tarde. O Sr. V. continuou muito desconfiado e fez um zapping pelos 4 canais repetidas vezes. A Sra. M. já só me dava beijos e não tardou nada estavam os dois felizes e contentes, agarrados a mim e a dizerem coisas como "foi um anjo que nos caiu do céu". 

   Aquilo que para qualquer pessoa seria a coisa mais banal do mundo - qualquer um de nós já "arranjou" uma televisão, ou neste caso um aparelho de tdt - para aquele casal foi a melhor coisa que lhes podia ter acontecido naquele dia, pois tudo o que têm a companhia da televisão, principalmente quando já são cada vez menos capazes de suportarem as dores e o envelhecimento de cada um, juntos. 

   Ontem fi-los sorrir e sai de lá a sorrir por mais uma vez perceber que é preciso tão pouco para tornarmos a vida dos nossos idosos menos pesada. 

Porque ainda temos muito a aprender a respeito da velhice

   «A tradição confuciana tem um papel central no modo como os chineses encaram a velhice e as pessoas idosas. Baseada no respeito pelos ascendentes e na piedade filial, esta filosofia considera as pessoas idosas como modelos éticos e morais que dever ser honrados e seguidos (...) Foram introduzidas medidas políticas importantes, como a generalização de uma reforma por velhice e a criação de instituições de apoio a pessoas idosas necessitadas. No entanto, o papel da famíla permanece fulcral, já que a maioria das pessoas idosas continuou a habitar em casas com mais de uma geração, na companhia dos filhos e netos. Neste tipo de organização social, as pessoas idosas desempenham um papel activo, já que ajudam na organização da casa e tomam conta dos netos enquanto os pais estão a trabalhar. Em situações muito excepcionais em que não habitam com as suas famílias, os mais velhos residem em pequenas instituições e desempenham também papéis muito activos nas comunidades, gerindo pequenos negócios, como, por exemplo, o transporte para a escola de crianças, filhas de pais trabalhadores, serviços de lavandaria ou distribuição de leite na comunidade. Esta participação activa das pessoas idosas na comunidade torna-as, não um fardo para a sociendade, mas sim uma parte essencial e integrante da economia e da vida social

Discriminação na Terceira Idade, Sibila Marques