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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Ainda a propósito do dormir emparelhado...

   Têm de concordar comigo que, para quem tem dificuldades em dormir acompanhada, viver situações como esta não ajuda. Vejamos:

   Um hotel quentinho e sossegado no meio de uma região gelada, cerca das 4 da madrugada, ele faz a pergunta da praxe: "Estás a dormir?". Sim, eu ESTAVA a dormir antes de ele perguntar. Não respondi. Recebi um beijinho (durante a noite, não, não mesmo! Por muito bem que saiba acordar com um beijinho, às 4 da manhã perde toda a sua graça) e ele pôs-se a pé. Destino? A garrafa de água que estava do meu lado e a fatia de bolo de chocolate que o Hotel nos tinha deixado no quarto (sim, ele é rato que come bolos de chocolate à noite). Eu a ouvir tudo, acordada, a tentar adormecer novamente a todo o custo e, de repente, "Eiiii, aconteceu aqui um acidente...eeeiiii...". Acende a luz. "Xiiiiii...o bolo está a ser comido por formigas! Olha para isto, tudo cheio de formigas!". Já deitado ainda houve tempo para um "que desconsolo. Fiquei desconsolado. Estou cheio de fome."

   Tenho ou não tenho razão? E não, a culpa não foi das formigas...

Quando uma cama sempre foi para um, não é fácil passar a ser para dois

   Tenho em mim uma característica desde pequena: não gosto de dormir acompanhada. Quando se é menina e principalmente filha única a coisa resolve-se bem e não é problema de maior, mas quando se começa a crescer e a ver bem de perto a possibilidade de partilhar a cama com alguém diariamente este pequeno pormenor ganha dimensões gigantescas. Muitos poderão dizer "é uma questão de hábito", mas o que é certo é que, ainda que não tenha companhia nocturna diária (um gato, pelas dimensões, não conta), as noites em que durmo acompanhada (e sim, é sempre a mesma companhia) são as minhas piores noites. Primeiro porque, que há muito não sei o que é ter dificuldades em adormecer, estou tempos doidos a aguardar a chegada do sono ( e diz ele que falar não ajuda, por isso tenho de estar caladinha, ora de olhos fechados ora de olhos abertos a olhar para a escuridão, a pensar na vida, que é tudo o que eu não gosto de fazer na cama). Segundo porque tenho uma noite pessimamente mal dormida, com despertares constantes e frenéticas mudanças de posição (sim, porque eu sempre fui daquelas que de cada vez que muda de posição desperta), quando eu sou aquela pessoa que só desfaz um cantinho da cama e é mais sossegada a dormir que um urso a hibernar. 
   Eu sei que o defeito é meu, mas pelo sim pelo não já o fui instruindo com regras básicas do meu sono de beleza, que deverá incluir sempre uma leitura pré-dormida e que não pode, de todo, contar com momentos lamechas de "vamos dormir bem agarradinhos" ou "dá cá a tua mão para dormirmos unidos". Comigo na cama para dormir é para dormir e por isso tem de ser cada um no seu espaço saudável de sono, ou seja, cada um no seu canto (vestir um pijama polar é o segredo para ele fugir para o cantinho dele...diz que fico demasiado quente...) e "beijinho e até amanhã". Ele já começa a perceber como é que o meu sono funciona, embora não haja uma noite a dois em que, a meio de um soninho, não desperte com um "estás a dormir?" ao qual nunca respondo verbalmente mas perante o qual o insulto em silêncio. O resto é culpa minha, das minhas rotinas e do meu sono. E esper, sinceramente, que seja mesmo uma questão de habituação, senão antevejo um futuro negro: camas separadas...alguém no sofá...ou muitas olheiras pela manhã!

A escrever a nossa história há 8 anos...

"Ouve-se por aí: “Amor? Já não acredito em nada disso.”.

Mas… como assim? Quer dizer que deixaste de acreditar que tens a capacidade de gostar de pessoas e de partilhar coisas bonitas com elas? Então mas… controla-se, isso?

Essa coisa de amar alguém tem um botão de “on” e “off” e andámos todos a desligá-lo da corrente nos últimos anos? É isso? Eu acho que o problema é que antes se embalavam as crianças ao sabor de histórias onde os protagonistas usavam coroas e rasgavam os céus montados em cavalos brancos. Agora, como já pouco se brinca com esse imaginário, e são também raras as histórias que ainda terminam com o triunfal “felizes para sempre”, parece que se declarou a morte ao amor. Pois bem, ele existe, está de boa saúde, come legumes e verduras e pratica desporto três vezes por semana. É um amor da vida real.

As utopias são isso mesmo, utopias. Só existem em paralelo com outra realidade, caso contrário não existem. Ou seja, o amor não anda montado em cavalos. E as pessoas não usam coroas ou vestidos de seda e tule bordado para ir trabalhar no dia-a-dia. O “felizes para sempre”, sabes quando é que ele aparece num livro ou num filme? No fim. Alguém teve de escrever tudo o que está para trás. Há uma história repleta de peripécias e também com algumas bruxas — sim, das que têm verrugas — e um ou dois dragões que cospem fogo pelo meio.

É uma história que se vive a um compasso duplo, lado a lado, a dois. São as músicas que se ouvem e cujas letras ambos conhecem de trás para a frente, os planos para amanhã que se tornam em programas de hoje e que se prolongam noite dentro. Os lábios a saber a mar que se enlaçam no Verão, o chapéu-de-chuva que se partiu mas que não é por isso que deixa de servir para abrigar os dois e os pequenos-almoços com direito a torradas queimadas porque se deixaram ficar na cama mais um bocadinho naquele domingo.

Mas isto dá trabalho. Escrever um livro inteiro, entrelaçar tantos episódios, tantos capítulos, pontuar sem tirar o sentido das frases, evitar o uso excessivo de reticências, transformar pontos finais em pontos e vírgulas…! Uff! É obra. Talvez seja por isso que a grande maioria de nós acaba por criar blogues ou escrever rúbricas para jornais de quando a quando. Dá menos trabalho, não requer tanta imaginação, tanto tempo disponível.

Mas o amor não se presta a essas coisas da disponibilidade. O amor é prosa, é narrativa, é poesia. São as histórias que escrevemos a dois, e dão mesmo trabalho, e levam-nos mesmo muito tempo. Por isso, se quiseres chegar ao final da tua história e pontuá-la com um majestoso “vivemos felizes para sempre, SIM”, tens muito que escrever.

Que se deixem as personagens que usam varinhas de condão para as utopias, que se retire a declaração de óbito ao amor, se faz favor!"

Texto de Catarina Sanches, publicado em http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/9911/ate-que-utopia-nos-separe

Escuta, amor

«Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos. 
Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes. 
Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.     

Escuta,     

ouve.     

Amor.     

Amor.  »

"Abraço", José Luís Peixoto

"Before Midnight"

   Finalmente consegui ver este filme. Já por cá disse que sou completamente apaixonada por estes dois e "Before Sunset" é, de loooonge, o meu filme favorito de todos os tempos. Nunca vi mais nenhum filme com diálogos tão ricos, que surgissem de forma tão espontânea e natural como acontece neste filme, que não precisa de mais nada para além destas duas personagens para encher o ecrã e os nossos corações. Por isso mesmo, estava ansiosa para ver este filme e perceber o que aconteceu a estes dois.
   Para começar tenho já de dizer que me desiludiu o facto de existirem filhos...que querem, é esta minha veia anti maternidade que pensa que todos os casais dão felizes a dois. Fiquei logo com um pé atrás...hum...ele tem um filho da ex que deixou para ficar com o grande amor da sua vida (outra coisa não seria possível), com quem teve gémeas...hum...mas felizmente o filme coloca pouco ênfase na canalha, o que bastou para quase me esquecer que existiam crianças no meio. Depois achei completamente desnecessários aqueles diálogos dos e com os amigos. Não trazem nada de importante para a história do casal, que é o que realmente nos interessa no filme. E, tal como disse anteriormente, os dois bastam-se, os dois sós, e mais as suas conversas, são mais que suficientes para fazer um filme inesquecível.
   Outra surpresa: ela está completamente impossível de aturar. Mesquinha, despropositada, inconveniente, mázinha q.b. para o pobre rapaz que se transformou em homem. Assustador pensar que há tanto de nós, mulheres apaixonadas, naquela personagem. E ele está como sempre foi, completamente rendido a ela, capaz de tolerar todas as suas birras e ainda brincar com a situação, cheio de amor pela pessoa cheia de defeitos que ela é, pleno retrato de todos os homens que amam as suas mulheres incondicionalmente, que é a única forma de amor mas a mais difícil de encontrar.
   E lá estão eles os dois, com os seus mundos completamente diferentes, um racional outro emocional, mas perfeitamente encaixados nas particularidades de cada um.
   Não posso dizer que gostei mais deste filme que dos anteriores, especialmente do penúltimo, que acho impossível de superar, mas gostei de rever este casal, até porque poucos "casais" encaixam tão bem, enquanto personagens, quanto estes dois o fazem.

 

 

Aquelas pequenas e rídiculas coisas onde vemos amor

   Eu e o meu Mr. Big temos esta características desde os primeiros tempos de namoro: diversas vezes vestimo-nos com os mesmos tons, sem combinar. Tal como era de esperar, nenhum de nós alguma vez reparou nisso, até que um dia, ainda na faculdade (my God, isto já é uma relação do tempo da faculdade!), uma amiga dele nos diz algo do tipo "mas vocês combinam a roupa que vão vestir para andarem iguais?". Não, nunca chegamos a esse ponto estupidamente lamechas e piroso, mas o que é um fato é que isso acontece. São aqueles momentos que carinhosamente (e pirosamente!) chamamos de "manos, manos!". E lá vamos nós, manos na cor da roupa, a lançar na cabeça dos outros comentários do tipo "que pirosice, aqueles vestem-se de igual".
   Poderemos chamar-lhe amor? :)

Amar

«O Antonino disse à Isaura que amasse. Que amasse, pelos dois, o pescador, que dele cuidasse como quem cuidava do importante destino do mundo. O toque de alguém, dizia ele, é o verdadeiro lado de cá da pele. QUem não é tocado não se cobre nunca, anda como nu. De ossos à mostra.

  E amar uma pessoa é o destino do mundo.»

Valter Hugo Mãe, "O filho de mil homens"

I wish nothing but the best for you...

 

   Desde que a Adele lançou a sua mais que famosa e ouvida (até à exaustão!) "Someone like you" que vão surgindo aqui ou acolá alguns comentários controversos relativamente à essência desta música. Dizem os "entendidos" que a senhora que canta só pode estar doida ao escrever uma música a desejar as maiores felicidades do mundo ao um ex na sua nova vida com a sua nova cara-metade. Não consigo deixar de abanar a cebeça pernate comentários/opiniões deste género, pois não vejo qual o mal de tal atitude. A verdade é que eu nunca percebi porque é que quando uma relação termina temos de passar a odiar a outra pessoa e a desejar-lhe o pior do mundo e arredores, ao ponto de transmitirmos esses sentimentos negativos para alguém que, futuramente, venha a ocupar um lugar que algures já foi nosso.

   Claro que é importantíssima a forma como cada relação termina, pois isso acaba por determinar um pouco os sentimentos que pomos nesse final e a forma como o vivemos e nos preparamos para um futuro separados de alguém que foi importante para nós. Mas, até mesmo em casos mais extremos e dolorosos e imperdoáveis, não vejo o motivo de não querermos a felicidade de alguém, ainda para mais quando esse alguém até já nos fez feliz, ainda que momentaneamente.

   No amor que termina, como em muitas outras situações da nossa vida, não devemos ficar presos ao passado e viver de rancores e mágoas. É preciso, é fundamental, sermos capaz de ultrapassar a situação. De vivê-la intensamente, de sofrer, chorar, gritar, questionar, negar e depois de tudo isso aprender a viver com a nossa nova condição, e isso só acontece quando aceitamos o que nos acontece. Não esquecemos, porque há muita coisa que nunca se esquece, mas aprendemos a viver com isto ou sem aquilo. É este um dos meus principais lemas de vida e que se adapta a tantas e tantas situações da nossa vida: não esquecer, mas reaprender a viver...ou se preferirmos a simplicidade da língua inglesa, que tantas vezes noa ajuda a descomplicar sentimentos, é o "get over it", que tanto nos custa mas que tão bem nos faz.

   Por isso, para que todos nós possamos ser como a Adele e escrever uma música a desejar o melhor a quem nos partiu o coração, o que há a fazer é "get over it", limpar o coração, guardar o que de melhor vivemos, aprender a lição quando há para aprender e seguir em frente. Só desta forma seremos capazes de não atravessar a rua quando nos cruzamos com alguém que já caminhou ao nosso lado.

E depois do amor, amor.

«Somos sempre muito mais na vida dos outros do que imaginamos. Talvez nunca tenhas percebido o quanto te amei, mas ainda não é tarde para abrir o coração e deixar que a voz da alma fale mais alto do que a razão. O amor é uma terra estranha onde tudo renasce do nada, onde tudo é, ainda e sempre, possível. Basta querer e acreditar. Não é fácil amar, o impossível é viver sem amor.  

Vem dar-me um abraço à casa que já foi nossa, vem sem medo e de coração aberto. Aparece quando quiseres, quando sentires que é o momento certo, não antes. Tenho a certeza de que ainda nos conseguiremos rir e conversar, como sempre fizemos enquanto estivemos juntos. Riso e entendimento, sempre e para sempre. Só se vive uma vez, e tudo o que mais quero, além de ser feliz, é que também o sejas.

Todos temos direito à felicidade. Apenas precisamos de encontrar o caminho certo que nos guie até aos nossos sonhos. E depois segui-lo, sem olhar para trás.»

Margarida Rebelo Pinto, "O amor é outra coisa" 

Cortar laços

«É difiícil cortar laços, dói tanto como uma ferida aberta. Dói o corpo da ausência do outro corpo, dói o coração que não pode parar de bater mas que queria dormir para esquecer, dói a alma que se sente esvaziada, dói a raiva e o ciúme e o medo de perder quem nos é tão querido, mas acima de tudo dói a sensação de termos falhado, de não termos conseguido ser mais fortes, de termos permitido que a vida vencesse o amor, e não o seu contrário.» 

Margarida Rebelo Pinto, "O amor é outra coisa"