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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Vamos lá esclarecer uma coisa, que eu continuo a ser boa pessoa e sensível

   Sendo directa: eu não sou contra o subsídio de desemprego! Ok, certo, alright? Posso ter mau feitio, mas não tenho assim tão mau génio que não me permita perceber que, em alguns casos, e sublinho o alguns casos, é profundamente necessário e a única tábua de salvação. Ou a única bóia, vá, para ser mais concreta.

   Eu nunca recebi subsídio, apesar de também já ter sido desempregada, mas conheço muita gente que o recebe ou recebeu, amigos, conhecidos, pessoas de família, o meu namorado até! E sei que para a maioria dessas pessoas ele era ou é fundamental e, acima de tudo, um direito. Eu sei que posso ter uma vida facilitada e segura, pois felizmente e graças a todos os deuses, santos e anjos, tenho um emprego minimamente estável há quase 4 anos e uns pais que me ajudam até à morte. Mas também sei que a vida custa, também sei o que é estar desempregada ou trabalhar em condições precárias e com menos de 200euros por mês; é certo que na altura não tinha despesas, contas para pagar, uma família para sustentar, mas tinha uma vida para começar, projectos, sonhos, ambições e toda uma série de coisas que fui adiando e adiando à custa da minha situação profissional e monetária, ao ponto de só hoje, na barreira dos 30, poder começar a pensar na MINHA vida, sem necessidade da cama de rede fantástica que são os nossos pais. E quem por aqui passou sabe que o que custa para um jovem que quer arrancar e simplesmente encontra todas as portas fechadas. Felizmente sempre acreditei que um dia a minha estrelinha iria finalmente brilhar, e em 2011 lá aconteceu o milagre que tenho conseguido manter até hoje. 

   Mas se hoje posso dizer que tenho um emprego que me paga rigorosamente e sem falhas ao dia 30 de cada mês e que em 2013 até deixei a precariedade dos contratos para passar "ao quadro", também tenho perfeita noção que isto de nada vale e que amanhã tudo pode mudar. E nessa altura, que eu espero que nunca chegue, eu também vou querer o meu subsídio de desemprego e vou-me agarrar a ele com todas as forças, como me agarraria a uma bóia em alto mar. 

   O que me faz confusão é viver à custa e em função do subsídio, seja ele qual for, e ter aquele pensamento do "ah e tal, até nem estou mal de todo, recebo o subsídio, vou-me deixando estar até ele acabar e depois logo se vê" e nos entretantos lá vão rejeitando uma e outra proposta de emprego, porque até se ganha mais em casa e sem fazer nenhum. E se isto é frequente no desemprego, ainda mais nos RSI. Esta é a realidade com que eu lido no meu emprego e por isso é uma realidade que eu vou conhecendo e que é estupidamente comum. Famílias que vivem de subsídios, mas cujas contas bancárias têm mais actividade que a minha em época de saldos da Zara e não, não é a pagar despesas (porque com um bocadinho de sorte ainda conseguiram apoios para todo o tipo de despesas e mais algumas). Pessoas que "ai coitadinha de mim que estou desempregada há tanto tempo", mas que ostentam as melhores unhas de gel, vão ao cabeleireiro todas as semanas, fazem pequenos-almoços no café diariamente e não abdicam dos pacotes de televisão e internet com 500 canais e 100gigas ou da última playstation para o filho e o último telemóvel para o pai. Isto é que me incomoda. Este sustentar de vícios, reforçar vícios, que os subsídios podem representar. Estou em casa sem fazer nenhum, sem querer fazer nenhum e o dinheirinho a cair-me na conta todos os meses certinho... parece bom, parece! Mas a vida é tanto mais que isto. E acima de tudo é de uma terrível injustiça para quem trabalha uma vida inteira com a possibilidade de daqui a muitos anos (e cada vez são mais!),quando a merecida reforma e descanso chegarem, não ter um cêntimo que seja de reforma. É isto que me incomoda!

   Por isso não me atirei muitas pedras, mas percebam-me e apercebam-se desta realidade. Quem me dera a mim que os subsídios não existissem desde que isso significasse que todos nós temos trabalho e já nem peço que seja o trabalho de que gostamos, mas apenas aquele que nos sustenta. O importante é nunca nos acomodarmos e mentalizarmo-nos que é nos momentos difíceis que mais temos de nadar e lutar e lutar e nadar e lutar outra vez. Parar não é solução, apesar de todas as portas se fecharem. Desanimar é proibído. Desistir é a nossa morte. Acreditar é alimento para a alma e para os nossos sonhos.

   Não me quis redimir, apenas esclarecer o meu ponto de vista e o que trabalhar na área social me tem vindo a mostrar. Espero que continuem a acreditar que sou boa pessoa, com alguns momentos de revolta. 

   Haja trabalho!!!!

Histórias com gente dentro...

   Quando ouvimos da boca de alguém com mais de 70 anos "Eu nunca fui feliz" e, conhecendo a história de vida deste alguém, sabemos que estas palavras têm tanto de duro quanto de verdadeiras, ficamos a pensar que às vezes a vida é a coisa mais complicada de ser vivida. 

   E que, na vida, nem tudo depende de nós, porque a vida pode ser traiçoeira, apesar da nossa garra e da nossa vontade de viver e lutar e viver e lutar e viver... e injusta, sobretudo injusta.

   Uma vida que nunca foi feliz não é uma vida que valha a pena ser vivida. Não é a vida que escolhemos viver. Mas foi a vida que nos foi dada a viver. Ou a sobreviver. A aguentar. E agora, aos 70 e tal anos, com uma vida que nunca foi vida  presa a uma cama há 14 anos, ter a certeza que nunca se foi feliz é a pior coisa que podemos levar desta vida, que nunca o chegou a ser. 

Apesar de tudo

Apesar de tudo amar. Apesar de tudo viver. Apesar de tudo sentir. Apesar de tudo arriscar. Querer apesar de tudo. Crer apesar de tudo. Insistir apesar de tudo. Ser apesar de tudo. Ir apesar de tudo. Apesar de tudo é o melhor conselho que alguém pode dar a alguém.
Por mais coisas que nos faltem na vida há tantas coisas que não nos faltam na vida apesar de tudo.

"In Sexus Veritas", de Pedro Chagas Freitas

Quantas vezes, na nossa vida, não deveriamos ter pensado assim? Quantas vezes, naqueles momentos que consideramos demasiado duros para os conseguirmos ultrapassar, não deveriamos pensar "apesar de tudo..."

Não querendo entrar por um território que já várias vezes aqui explorei, trabalhar na área que trabalho torna este apesar de tudo das expressões mais correctas quando toca a analisar a minha vida, comparando-a às vidas com que me cruzo. Quando se lida com tanto sofrimento humano, o nosso pequeno sofrimento parece sempre menos significativo e é nesses momentos, em que eu chego perto do desespero de não saber como lidar com alguma situação da minha vida pessoal que apenas uma coisa me invade o pensamento: o meu "apesar de tudo...", porque apesar de tudo o que nos possa acontecer, temos os nossos apesar de tudo que ainda fazem a vida valer a pena. 

Quando a vossa vida estiver demasiado cinzenta, lembrem-se dos vossos "apesar de tudo"...vão ver que surgem outras cores para além do negro. 

Histórias com gente dentro...

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A D. J. é a velhinha que eu quero ser quando for grande!

Hoje, em mais uma visita domiciliária, encontrei-a preocupadíssima com o facto de não conseguir fazer sozinha a sua árvore de natal. Quando temos mais de 90 anos, vivemos sós e não temos absolutamente nada nem ninguém na vida e nos preocupamos com coisas como enfeitar a casa para o Natal ou para o S. João (são os 2 momentos em que a casa da D. J. é uma miscelânea de enfeites!) só podemos ser especiais e só por isso já merecemos uma grande salva de palmas. Foi por isso que não resisti e lá andamos a montar a árvore de natal, entre luzes, fitas, bolas e muitos espirros, à procura do material necessário em caixotes carregados de pó.

No final, quando o olhar dela já brilhava mais que as luzes coloridas no pinheiro, ainda houve tempo para: "oh, que pena, agora só me falta comprar um ano velho". Perante a minha admiração, "então não sabe? Espere, tem outro nome... o velhote", "ah, o pai natal! É o pai natal, não é o ano velho, D. J.". "E então? Não é velho ele? Então é o ano velho!".

E lá vim eu carregada de sorrisos com a alegria dela por ter o natal em casa antes do fim de novembro, com duas bolas de natal para a minha árvore oferecidas pela D. J. e a clara certeza de que é muito fácil fazer alguém feliz. Hoje, era apenas isto que a D. J. precisava. Não era de conversar, de desabafar... provavelmente dos momentos mais enriquecedores da minha vida profissional. 

Pôr o dedo na ferida...e não o tirar enquanto não sarar

   Ser psicólogo também é isto: descobrir onde está ferida, descobrir porque sangra, pôr lá o dedo e escarafunchar muito bem até a pessoa saber viver com essa ferida curada. Mas isso não é fazer sofrer o outro? Não. É trazê-lo para a realidade porque o queremos ajudar. É dizer-lhe "eu sei que dói, e ainda vai doer mais, mas o caminho é por aqui e, juntos, vamos fazer o penso desta ferida que dói tanto".

   Às vezes não é fácil chegar lá, à ferida mesmo. Tem uma crosta por cima que a encobre mas que não a sarou. Às vezes é preciso andar ali à volta, a explorar, a descobrir, e quando menos esperamos, click, as lágrimas, a dor, o sofrimento e a certeza de que temos de continuar exactamente por aquele caminho.

   O melhor de tudo? Sentir e saber que, no final e apesar de todo o sofrimento, é possível sarar as feridas dos outros.

Histórias com gente dentro

   De vez em quando encontro pessoas assim: resistentes às minhas tentativas de ajuda, com o discurso do "eu não preciso", quando sabemos perfeitamente que precisam e muito e do "já não nada que possa fazer por mim". Nestes casos limito-me a respeitar sem nunca me fazer esquecer, ou seja, de longe a longe vou passando lá por casa "só para saber como está e lhe dizer que, se precisar, eu estou cá".

   Nestes casos e quase sempre de repente dá-se o clic que os faz dizer "gostava de poder falar com a Dra..." e ganho aqui amigos de uma vida, que é como quem diz, casos em que as visitas terminam sempre com um "e agora, quando volta?".

   A Sra. N. é um destes casos. Ou era... Connosco há vários anos, muitos mais do que os que eu tenho na instituição, passou de cuidadora exímia de um marido em fase terminal de doença cancerosa a cliente há cerca de 2 anos, com a morte do marido. Dona de uma personalidade muito própria e peculiar e de ideias nem sempre facéis de gerir, a Sra. N. nunca aceitou a minha ajuda, apesar de serem claríssimos os sinais de um enorme desgaste emocional causado pela doença do marido e depois pela sua morte e acima de tudo por uma história de vida complicada de quem teve tudo e todos e hoje sobrevive com tostões e caridade, numa solidão total que encara como humilhação e castigo que não compreende.

   Sem nada o fazer prever, na passada semana pediu a uma das nossas colaboradores para marcar uma visita minha. Caiu-me o queixo. A mim e a toda a equipa. Ontem lá fui, conhecê-la, percebê-la e ouvi-la. Principalmente ouvi-la, porque é só disto tudo que ela precisa, de alguém que a ouça fechada numa casa despida de calor humano, alegria e afetos. O tempo passou a voar, a conversa foi interessantíssima, compatível com a pessoa que acredito que a Sra. N. é e já muito perto do final compreendi o que a fez mudar de ideias e chamar-me. Completamente desacreditada da vida e das pessoas, a Sra. N. leu o meu texto "A arte de cuidar" publicado na última revista instituição e reviu-se naquelas palavras dedicadas a todos os cuidadores. Segundo ela, viu ali compreensão e dedicação de alguém que se preocupa com quem cuida e não apenas com quem está doente. E com aquelas palavras, voltou a acreditar um bocadinho nas pessoas e na humanização...ou pelo menos, começou a acreditar um bocadinho em mim e como ela própria disse "ao ler isto eu percebi que tinha aqui alguém que me pode compreender, que me vai ouvir e que me vai ajudar".

   Para quem, como eu, acredita nas pessoas e na capacidade de mudarmos vidas simplesmente estando lá e ouvindo, isto foi dos maiores elogios possíveis. E sim, a visita terminou com a marcação do nosso próximo encontro.

A pessoa antes da profissão

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   A mistura de papéis é uma coisa com que tenho dificuldade em lidar. Se me querem ver realmente irritada, e acreditem que é difícil saltar-me a tampa, é ter alguém da minha rede social mais chegada (família e amigos) dizer-me algo do tipo "tu disseste/fizeste/pensas isto ou aquilo? Mas tu és psicóloga, como é possível?!?".

    É verdade, sou psicóloga. Mas, guess what, atrás, à frente, antes e depois da psicóloga, há uma pessoa, que sou eu, enquanto pessoa mesmo, só pessoa, sem qualquer profissão ou obrigação imposta por essa profissão. É certo que eu acredito que a nossa profissão deve surgir de uma vocação, de uma propensão para determinada área, e que isso tem tudo a ver com a nossa personalidade, a nossa maneira de estar no mundo e ver o mundo, mas aquilo que nós somos está antes e para além de tudo isso. Sou psicóloga, sim. Mas assim que saio do trabalho gosto de tirar essa farda. Nunca totalmente, é certo, porque o olho clínico é muito forte (mas os anos vão-nos ensinando a desligá-lo), mas na minha vida, sou a filha, a neta, a sobrinha, a prima, a madrinha, a namorada, a amiga, a vizinha...a pessoa! Sou eu! Eu que decidi ser psicóloga quando a formação da minha personalidade atingiu aquele ponto que me permitiu conhecer-me e saber o que quero ser na vida.

   Se há profissões que carregam um certo "ah ela é assim porque é isto", psicóloga/o é uma delas. Ainda me recordo de há alguns anos atrás ouvir recorrentemente o comentário "esta é fulaninha, mas cuidado que ela é psicóloga!" ou algo como "enquanto estamos a falar estas a analisar-me, não é?" (deste ainda não nos conseguimos livrar).  Não, não é. Descansem que eu só uso o meu leitor de pensamentos e o meu scanner de transmissão de informação mental durante o horário de trabalho e nunca o trago para casa.

   São atitudes que cansam. E é tão simples: não é a profissão que escolhemos que faz de nós isto ou aquilo. Nós é que fazemos a nossa profissão. Que será sempre isso: a nossa profissão, e não aquilo que somos!

This made my day

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 Qual a característica que mais aprecias em ti? 

   É uma pergunta que todos nós poderemos um dia escutar. Sem pensar muito, facilmente diria que a minha forma positiva de ver as coisas e a vida, sem negativismos e pessimismos extremos que nos inundam em sofrimento e mágoa, mas com os pés sempre muito bem assentes na terra. 

  Mas agora, e depois de alguns anos de experiência profissional enquanto psicóloga, a minha resposta mudou e descobri isto hoje depois de uma tarde de consultas relativamente pesadas. É a minha necessidade de arrancar um sorriso aos outros, seja em que situação for, que mais de agrada em mim. Esta vontade de, mesmo com lágrimas nos olhos, ver o outro sorrir. É isto que me realiza enquanto psicóloga. Muito mais que saber que estou a ajudar aquela pessoa ou que lhe poderei estar a conduzir a vida para um caminho mais simples. Muito mais que ouvi-la. Muito mais que me dizerem "Obrigada doutora". Muito mais que qualquer coisa. Ver um sorriso na cara de uma pessoa que me pediu ajuda, seja qual for a sua idade, é a melhor recompensa que eu poderia ter. E é para isto que eu me esforço todos os dia, a cada consulta: por roubar um sorriso sincero. Quase sempre consigo. E é isto, isto mesmo, que é tanto, aquele momento, aquele sorriso partilhado, que me faz sentir orgulhosa pelo meu trabalho e cheia por dentro, apesar de todo o sofrimento humano com que lido. É isto que faz aparecer por cima da minha cabeça aquele balãozinho invisível que diz "this made my day". 

   

Histórias com gente dentro...

   Hoje, pela primeira vez em consulta, aquele momento em que percebemos claramente que temos de usar todas as nossas barreiras emocionais e profissionais para não nos envolvermos mais naquela história, naquele momento, naquela dor, se queremos manter a postura de "eu não vou chorar com os meus pacientes". 

  Explorar o abuso sexual de uma jovem de 18 anos com a própria é duro, muito duro. Especialmente quando começamos a criar uma relação de proximidade terapêutica tão positiva, que a pessoa já confia em nós apenas para chorar e chorar e chorar...

   O melhor e o pior da minha profissão!