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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Da solidão de uma infância que passou sem se notar

É notório que Iria gosta de conversar. Com quem o fazia, quando vivia na Anta? Falava com a mãe, à noite, mas apenas sobre o trabalho. Onde levar o gado, que terra se ia ajudar a lavrar.

De dia falava com as ovelhas e as cabras. Atribuia um nome a cada uma. A Raposa, a Bonita, a Morgadinha, a Vermelhinha. Estas eram as ovelhas. As cabras chamavam-se Cornuda, Pretinha, Mocha.

Iria brincava com ela. "Anda cá Raposa!" Mostrava-lhes as roupas que estava a confeccionar, a malha que tricotava com giestas, com os gestos hábeis da costureira que sonhava vir a ser um dia.

Fazia roupa para a boneca de cartão pintado e arame que a tia Piedade lhe oferecera antes de morrer. Trazia-a sempre consigo, no cestinho das azeitonas. Como era o único brinquedo, não tinha nome, ao contrário das ovelhas. Era apenas "a boneca". Começou a desfazer-se. Primeiro nos pés. Depois despontou-lhe o arame debaixo dos braços. Mas sobreviveu, em situação de farrapo, enquanto Iria morou na Anta.

Outra brincadeira eram os estalos com marcavalos. Os montes estão repletos dessa flor roxa que nasce em cachos rasteiros ao chão. Iria arranca uma para exemplificar. Aperta com os dedos a base aberta do pequeno cone da flor, e faz rebentar contra a outra mão, com um estalo, o ar comprimido no interior. "Fazíamos assim na testa das pessoas. Toma!".

Mas que pessoas Iria? Não havia aqui mais ninguém. "Pois não. Mas eu fazia assim.", admite ela, rebentando o marcavalo na sua própria testa. "Toma!".

"Longe do Mar", Paulo Moura

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