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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Histórias com gente dentro...

   Mulheres subjugadas e completamente comandadas e limitadas pelos maridos ainda existem. Acompanho uma em consulta neste momento. Uma mulher de 50 e poucos anos, cuja expressão facial expressa um sofrimento maior que a revolta das suas palavras. Enquanto técnica e, sobretudo, enquanto mulher, é-me muito difícil gerir da melhor forma estes casos. Eu que cresci num mundo de total liberdade e autonomia para a mulher e que tenho a mania que sou a mulher mais independente e capaz do mundo, não consigo sequer equacionar como é possível existirem mulheres capazes de viverem numa prisão no próprio casamento e ainda dizerem "eu tenho tudo para ser feliz, mas não sei porque não o são", a mesma mulher que logo no início da consulta me diz, com o maior dos sorrisos: "hoje estou de folga e tirei a manhã para cuidar de mim e fui arranjar o cabelo e fazer a depilação nas pernas. Nunca tina feito!. 

   Esta mulher, que é apenas um exemplo de tantas outras em situação semelhante ou pior, não tem tudo para ser feliz. Na verdade, não tem nada para ser feliz! Porque esta mulher é controlada pelo marido de forma doentia, desde a hora a que sai para o trabalho e a hora que chega ("ele quer sempre levar-me ao trabalho e às 17h30 já lá está para me ir buscar), o que veste ("Ainda hoje, vesti umas claças salmão e ele disse logo tira isso, tem algum jeito essa cor"), o que compra ("Se eu quero comprar uma roupa ou uns sapatos, ou alguma coisa lá para casa, ele tem de vir comigo), o que calça, o que cozinha (o marido prefere ser ele a cozinhar. Gesto bonito? Não. Mais uma forma súbtil de controlo), a forma como decora a casa ("Vi uma casa-de-banho com uma jarrinha com uma flor e gostei. Cheguei a casa e pus uma igual na nossa casa-de-banho. Ele chegou e começou logo a mandar vir e a dizer para pôr a jarra na sala. E está lá...realmente fica lá bem...gosto mais de a ver lá também...". Não, não gosta. Mas o marido gosta e é isso que importa). Passear sem o marido é impensável; a última vez qque foi passar o dia com a irmã, à Póvoa de Varzim, o marido mudou-lhe a fechadura da porta...vale a pena continuar?

   Talvez por isto e muito mais, esta mulher diz que as pequenas coisas a fazem feliz. O que é normal, porque quando não temos nada, qualquer coisinha nos faz feliz. Para esta mulher a cozinha fà-la feliz. Não porque a cozinha é o local da mulher, mas porque a cozinha é a única divisão da casa onde conseguiu fazer valer a sua opinião e que está totalmente decorado a seu gosto. 

   E esta mulher tem sonhos. Muitos. Um deles é ir passar uma noite a um hotel. À porta de casa. Com o marido, é certo. Porque ele é o marido dela e ela nunca entrou num hotel. Claro que ele não quer. Mas também tem outros sonhos. Sonha poder caminhar pelos seus próprios passos. Poder passear na cidade sem medo das horas, sem ter de dar satisfações ao marido. Sonha poder lutar pelo que quer, "porque eu sei o que quero e sei que consigo lá chegar". Eu até sei que ela sabe o que quer e que quer poder viver e não continuar a ser controlada. O que eu não sei é se ela algum dia vai verdadeiramente ser capz de perceber o pesadelo em que vive e a relação de completo desamor que tem com o marido. "Eu acho que conseguia viver sem ele". Eu acho que ela idealiza a vida sem ele, mas que uma vez nela, se iria sentir desorientada, o que seria totalmente compreensível. Eu não sei, ainda não sei, se para ela, esta situação irá algum dia mudar. Não sei se ela terá essa força. Não sei se ela realmente percebe a irracionalidade destes comportamentos.

   Esta mulher é das consultas mais complicadas que tenho actualmente. Pela situação, que me revolta e me obriga a um auto-controlo enorme. E pela pessoa que esta mulher é. Mas acima de tudo, porque esta mulher me mostrou, pela primeira vez, que é preciso sermos uma muralha cá por dentro para sabermos gerir os silêncios numa consulta...E tanto que se diz nestes silêncios!

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