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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

No Dia Internacional do Idoso

   O trabalho diário com idosos (e seus familiares) oferece-nos imensas oportunidades de aprendizagem e, acima de tudo, inestimáveis lições de vida. Pessoalmente, costumo afirmar, em jeito de brincadeira séria, que carrego cá dentro muitas vidas, vidas que não são minhas mas que me ensinam o que só a experiência e as vivências nos podem ensinar. As vidas que trago cá dentro são vidas feitas de histórias com gente dentro, gente essa que muitas vezes a sociedade discrimina, afasta, encosta a um canto. Para quem lida com o bom e o menos bom da vida e do envelhecer os desafios são inúmeros e diários. Mas, provavelmente, também é isso que nos alimenta os dias e nos faz gostar verdadeiramente daquilo que fazemos.

   Em pleno ano de 2014, numa época em que tudo o que no século passado parecia utopia já aconteceu ontem, continuamos a encontrar idosos sem as condições mínimas de subsistência, como por exemplo, sem luz ou água quente, e que, ainda assim, resistem às nossas tentativas de ajuda ou sugestões de alteração do seu estilo de vida – coisas simples como deslocarem-se ao centro de dia para tomar banho quando não têm água quente, aceitarem apoio para resolução de situações de corte de luz de há mais de 10 anos ou realização de higiene habitacional. Mais do que resolver estas situações, que na sua maioria são complicadíssimas, não só pela dita resistência do idoso, mas também pela escassez de respostas sociais imediatas, é necessário alterar mentalidades e representações mentais, já que para estas pessoas estas condições são tidas como “normais” e perfeitamente aceitáveis. Não me recordo de ter conhecido algum idoso a viver nestas condições desumanas que alguma vez tivesse reconhecido que viver no meio de lixo simplesmente não é viver e que merece muito mais do que isto. Acima de tudo é preciso respeitá-los, mas não desistir destes idosos, nem nos acomodarmos na certeza de que “fizemos tudo o que podíamos”, porque há sempre algo mais que podemos fazer pela qualidade de vida de alguém que, muito provavelmente, já perdeu toda a vontade de viver.

   A questão que se impõe é: onde está a família nestas situações?  A frieza, distanciamento e ausência de sentimentos com que algumas famílias tratam os seus (que acabam por ser mais nossos) idosos é das coisas que mais me revolta no meu trabalho. Quase diariamente me deparo com exemplos vergonhosos que me fazem questionar até onde o ser humano é capaz de ir na sua indiferença para com outros seres humanos. A solidão em que muitos idosos são deixados a (sobre)viver é uma das maiores epidemias dos tempos modernos e daquelas coisas em que pensamos enquanto nos encaminhamos para o conforto das nossas casas, onde sabemos que temos sempre alguém à nossa espera. Por um lado porque projectamos aquela solidão no nosso futuro e na possibilidade de também nós acabarmos sós e por outro, porque a solidão é talvez aquilo que mais sofrimento causa a um idoso, causando uma corrosão interior tão dolorosa que a morte emocional é inevitável. E a pior solidão é aquela que não é solidão, mas sim abandono (porque há a solidão que é quase obrigatória, quando não existem familiares vivos, por exemplo). As desculpas que os filhos arranjam para não estarem presentes na vida dos pais e as desculpas que os próprios pais arranjam para a ausência dos filhos davam tema para outro artigo, mas resumindo, os idosos estão abandonados porque há filhos se esquecem que o são, e esquecem que, algures, o pai e/ou a mãe estão abandonados e entregues a si próprios, a viverem sabe-se lá como e à custa de quê. Para estes filhos, uma questão apenas: "mas estes não são os seus pais?” Não deveria isto, que já é tudo, ser suficiente para nunca falharmos no amor e dedicação?  E como se não bastasse, temos ainda os próprios idosos, os pais, a desculparem estas ausências com um rol de justificações de quem não quer acreditar que foi abandonado. Quantas vezes aqueles pais anularam as suas vidas para estarem presentes na vida dos filhos, para mudarem uma fralda, para passarem uma noite em branco à espera que a febre baixasse, para terem o que lhes dar de comer e vestir... quanto sacrifício não terão eles feito para agora os filhos serem essas pessoas cheias de afazeres e cargos importantes que nem lhes deixam tempo para visitar quem lhes deu o mundo? Apenas um desabafo…

 É de dedicação humana que os nossos idosos precisam. E mais do que isso, o que temos de dar aos nossos idosos diariamente é um comprimido que não se vende na farmácia – o afecto. Como o Papa Bento XVI disse um dia “Quem acolhe os idosos, acolhe a vida”. 

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