Quem és tu?
Quem és Tu, aí pendurado nessa cruz, e porque nos olhas assim, tão piedoso, de esguelha, as sombras descendo sobre o teu corpo raquítico? E quando precisamos de Ti, porque ficas em silêncio, calado como um ratinho, esperando que sejamos nós, meros homens, vulgar gente, que nos salvemos sozinhos, que nos ajudemos uns aos outros e depois Te dêmos graças? Tu, que morreste uma vez, podes morrer outra. Tu fazes milagres, Tu serenas as tempestades, dás de comer a milhares, caminhas sobre as águas, pões moedas na boca dos peixes, definhas as figueiras porque não dão frutos, transformas a água em vinho, curas os leprosos e o servo do Centurião e os possuídos do demónio e os cegos. (...) Nós, meros humanos, morremos tantas vezes, e todos os dias, morremos pelos outros, com misericórdia abnegamos, dizemos que a morte não é o fim, a morte é o caminho, e acontece aqui, a cada instante, debaixo dos nossos olhos, perante tudo, perante Ti, somos indefesos e incapazes.
João Tordo, "O luto de Elias Gro"
