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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Se bem me lembro...

   Excelente "Prós e Contras" na passada segunda-feira, dia 14 de Abril, sobre a memória.

   Apesar de a considerar uma função cognitiva, a memória é, provavelmente, um dos nossos bens mais preciosos. É aquilo que fomos antes, que faz o que somos hoje e que projecta o que seremos amanhã. Muito para além desse título de função cognitiva, que nos permite, por exemplo, recordar um banal número de telefone, a memória é a nossa história, é cada passo que demos, cada queda, cada consquista, cada sorriso e cada lágrima. É a nossa biografia e a nossa bibliografia, pois é a ela que recorremos quando queremos escrever a nossa história. Eu sou, não aquilo que realmente sou, mas aquilo que me recordo de ser. Eu vivi aquilo que me recordo de ter vivido. Cada um de nós é uma construção da sua própria memória e é por isso que não existirão nunca duas pessoas iguais.

   Quem perde a capacidade de armazenar memórias e mais tarde perde as próprias memórias perde a sua identidade, o seu self. E, embora nessa fase a pessoa já não tenha capacidade para reconhecer tal, perder as nossas memórias é a mais dolorosa experiência humana. O vazio é tão grande que já não há nada, absolutamente nada. A pessoa passa a viver num lugar chamado nada, onde não existe nada, onde não se sente nada, onde não se sabe nada...viver sem memórias é estar morto mesmo continuando a respirar. É estar vivo sem ter vida.

   A memória também é esquecer. Voluntariamente. Esquecer para continuar, para viver. O que seria do nosso cérebro e da nossa alma se guardassemos tudo cá dentro, bom e mau misturados e confundindo-se e talvez até anulando-se um ao outro. É preciso filtrar as nossas memórias, organizá-las e mandar para a reciclagem aquelas que nos fazem sofrer. Sem querer substitui-las por falsas e ilusórias memórias, sem entrar nesta cultura de apagamento da memória que a sociedade actual parece favorecer, ao querer quase que negar aquilo que de mau a realidade teve e tem, injectando-nos memórias tão boas e positivas quanto falsas e ilusórias.

   Se bem me lembro, tenho 28 e alguns meses de vida armazenados cá dentro e convertidos em memórias únicas. Se bem me lembro, tenho outros 28 anos e alguns meses de vida esquecidos cá dentro e convertidos em memórias esquecidas, mas não negadas. Se bem me lembro, sei quem sou porque consigo ir lá atrás e sentir cheiros e sabores de outrora, consigo ouvir sons que já não emitem som e ver imagens que já lá não estão. Se bem me lembro, tenho tudo cá dentro. Se bem me lembro...