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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Sentimentos aéreos

   Gosto de andar de avião. Não gosto muito da descolagem. Aquela sensação de "tirar os pés do chão" e ficar suspensa no ar. E depois faz-me confusão aquele bicharoco gigante a levantar voo e subir, subir, subir e por lá ficar. Acabo sempre a pensar "E se ele não tiver a força suficiente para levantar e atingir a altitude ideal?". Pelo contrário, gosto da aterragem. De sentir aquela velocidade toda, os travões a trabalhar ao máximo e o nosso corpo completamente colado ao banco. A isto junta-se a sensação de "pés na terra" de novo. Confesso que nunca me ocorre, pelo menos conscientemente, um pensamento totalmente plausível: "E se os travões falharem?".

   Entre o levantar e o aterrar há o estar lá em cima, para lá das nuvens. Estabilizado. Viajo sempre à janela. Gosto de olhar para as nuvens, de olhar lá para baixo, de tentar reconhecer o que vejo. Uma vez por outra questiono-me "E se os motores agora falhassem e fossemos por aqui abaixo?". Imediatamente afasto estas ideias, pois sempre ouvi os entendidos dizerem que, uma vez estabilizado lá em cima, é muito difícil um avião cair. E isso sossega-me.

   Depois do recente acidente com o AirBus francês fiquei a pensar, ou a tentar imaginar, como deve ser horrível, senão mesmo insuportável, saber que o avião em que viajamos vai cair e, consequentemente, senti-lo cair. Desde lá de cima até cá abaixo. Momentos arrasadores. A queda. Para o fim (praticamente) inevitável. E não consigo perceber, nem sequer imaginar, qual será a sensação, porque, só de pensar, tremo toda por dentro. Não foi ao levantar, não foi ao aterrar. Foi no pior momento possível. Quando todos descansavam, quando as refeições já tinham sido servidas, enquanto alguns liam, outros ouviam música ou viam um filme. Num instante, tudo mudou. Para sempre.

   Foi por isso que hoje, ao deixar o meu pai no aeroporto, o meu coração ficou pequenino e só sossegou quando à pouco ele ligou e disse "Já cheguei". Não dramatizando, importa estar consciente de que as coisas não acontecem apenas aos outros. E sempre que entrar num avião (o que acontecerá daqui a 1 mês e uma semana) vou recordar este e outros acidentes. Recordar as vidas que partiram numa viagem para nunca mais regressar. E vou acreditar que as minhas viagens serão sempre de ida e volta.

228 vidas...somewhere, somehow

   E de repente a única coisa que parece interessar é que não existiam portugueses a bordo do A 447. Óptimo. Mas existiam 228 vidas, 228 seres humanos, que partiram sem deixar rasto, não se sabe bem onde, como, porquê e para onde. E fica a dor das famílias, dos amigos, dos conhecidos. Fica o desespero de quem perdeu tudo, sem saber como, porquê, onde e para onde.