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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

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...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Desmistificando mitos: os bairros sociais não são nenhum bicho-papão

   Desde que fui trabalhar para esta instituição, há quase 5 anos, que o grosso do meu trabalho é realizado nos bairros sociais do Porto. Actualmente, o meu centro social fica bem no coração de um dos mais antigos e por ventura problemáticos bairros sociais da cidade. Confesso que quando comecei o meu trabalho tive alguns receios; não me era um ambiente completamente desconhecido, mas era, sem dúvida, um ambiente onde não me sentia totalmente à vontade. Lembro-me de que no meu primeiro dia de trabalho tive uma visita domiciliária para fazer, curiosamente no bairro onde hoje estou diariamente. Fui "abandonada" numa casa desconhecida, num bairro desconhecido e no momento de regressar ao centro, sozinha e a saber que tinha de passar bem pelo meio de uma das zonas problemáticas do bairro, as minhas pernas tremiam. Por coincidência, estava esquecido em casa do cliente que visitei o casaco de uma das nossas colaboradoras e eu vi ali a minha salvação: como os casacos têm bem visível a identificação da instituição, regressei ao centro com ele vestido! Sempre era uma forma de me identificar com a instituição, que é claramente conhecida e respeitada nos locais onde está.  

   Gosto de contar esta história do meu primeiro dia e perceber como as coisas mudaram e em pouquíssimo tempo! Hoje saí para algumas visitas domiciliárias nesse mesmo bairro, que desde Setembro é a minha casa, sozinha, sem casacos, sem qualquer identificação, com total à vontade e perdi a conta ao número de vezes que disse "olá dona X", "bom dia, Sr. Y", "olá", "bom dia". E percebi mais uma vez que o que é assustador e perigoso não são as pessoas ou os locais, mas sim as ideias que construimos sobre as pessoas e os locais. Os bairros sociais do Porto são locais tão agradáveis para se estar como quaiquer outros e as gentes de lá podem ser realmente agradáveis de se conhecer. E chega a um ponto em que não dá para não nos sentirmos parte daquilo. Durante uma boa parte do dia aquele lugar supostamente mau, perigoso, insustentável, é o nosso lugar e é um lugar onde nos sentimos bem. É um lugar que temos o privilégio de conhecer, cheio de pessoas e histórias que nos ensinam o que de melhor e pior há na vida e nisto sim, os bairros sociais são bons: a ensinar-nos que a vida é muito, muito mais, do que aquilo que o nosso mundinho alguma vez poderia imaginar.