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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Crónicas de uma sala de espera

   P.S (sim, logo no ínicio) - Porque razão a visita a um qualquer serviço público em Portugal é sinónimo de longos períodos de espera, condições muito pouco agradáveis para aguentar essa espera e senhoras que complicam qualquer coisinha?

   É que assim, quando conseguimos tratar do que queremos nos ditos serviços sentimo-nos uns verdadeiros vencedores. YUPIIII já tratei do meu cartão do cidadão!!! YUPIII consegui!

 

   O Sr. X que tem 84 anos e está fresco que nem uma alface acabadinha de colher. O que ele queria era uma certidão de casamento, pois está de partida para o Rio, com a sua mulher, mas essa "vai com o motorista, sabe?" . "E em que ano casou?", "Com qual? Tive tantas mulheres...Vivi muito bem!". Não duvido, Sr. X. De facto, era adorável no alto da sua bonita idade e da sua muita sabedoria. Já a visão não é das melhores, ou eu sou demasiado vulgar. "Não é a Mara?". Não, não sou Sr. X, mas uma qualquer Mara, ao que parece residente em Chaves, criou ali um elo entre nós e a minha espera foi animada por algumas das aventuras daquela ternura de senhor, que veio de baixo e subiu, subiu e subiu, "Como o Lula, conhece o Lula da Silva?". Tratou-me por senhora, acho que pela 1ª vez em toda a minha vida, eu que nunca me livro do rótulo de menina. E bem vistas as coisas, antes menina que senhora.

   O Sr. X não vai votar, porque se votasse era numa mulher só que a "Manela, que até é bastante inteligente, é feia, então não vou votar nela". E para o  Sr. X nós, mulheres, somos fantásticas, porque somos bonitas e poderosas e podemos dominar o mundo. E foi isso que a Sra. X fez. Era estilista. Uma daquelas importantes e que foi riquíssima. Detentora de uma imaginação assombrosa. "Nada como essas que agora para aí há, sabe? Essas que aparecem naquele programa americano de moda, onde concorrem a um prémio de melhor estilista, sabe qual é? Eu vi logo que sabia. Tem todo o aspecto de quem gosta de moda" (Uau! É assim tão discarado o meu vicíozinho?). Não havia modelo que lhe escapasse ao olhar. Uma vista de olhos e a Sra. X criava qualquer peça de roupa. "O Saint Laurent conhece? Eu bem vi que conhecia. A minha mulher deu aulas ao Saint Laurent".

   E o Sr. X vai para o Rio de Janeiro com a Sra. X, mas "Ela vai com o motorista" e qualquer dia a senhora que o atendeu também vai ao Brasil, porque o Sr. X faz questão de a levar. E de lhe trazer uns pastéis de Chaves. "Ela já me conhece, já está habituada comigo". Para o Sr. X o Rio é muito bonito. O Rio e São Paulo. Perigosos. Mas não para ele, que conhece a mafia toda desde "Bragança, lá na fronteira, até Lisboa". E os papéis são só para "a minha mulher, que vai com o motorista, porque eu conheço lá gente do governo, tenho ministros na família, estou à vontade".

   O Sr. X, que com 84 anos já viveu muito, namorou muito e ganhou muito dinheiro. Conhece a máfia toda e a esposa foi estilista, professora do Saint Laurent, "que até já morreu, mas continuam a trabalhar lá outros. A minha esposa é que já não pode porque tem 80 anos e bebia um bocado". Mas é a sua esposa. "Bonita, bonita. Quer vê-la? Tenho aqui no telemóvel uma foto dela, muito mais nova está claro". E o Sr. X lá vai para o Rio, ver o Corcuvado "que é muito bonito, mas há mais coisas". E vai continuar a conversar com conhecidos e desconhecidos, sobre si e sobre a sua senhora. Sobre moda, política, máfia, dinheiro. Sobre passado, presente e futuro. E vai continuar a namorar muito, porque "a minha esposa ainda é muito bonita, mesmo com 80 anos. Tenho de tratar muito bem dela e aproveitar a sorte que a vida me deu.".

   Um bem-haja aos Srs. X`s desse mundo fora, que nos animam os dias com histórias de tudo e de nada.

"Óh filha. eu quero lá saber..."

  

   Em plena crise económica e recessão e etc e tal há conversas dignas de um post neste blog em pleno centro comercial:

     - O Bestido era meMo lindU. Mas custaBa 250 euros.

     - Óh filha eu quero lá saber. Eu quero é ter uma roupa "féshion".

    Ok! Não quer saber... mas deveria querer saber que ser "féshion" não é sinónimo de usar roupitas acima de determinado valor ou de determinada marca. E também deveria querer saber que essa história de crise económica é mesmo verdade e veio para ficar. E já agora, ser "féshion" é muito mais do que usar um vestido bonito. Saber estar e ser (e já agora falar) é tão ou mais importante. Ah! E fashionistas nunca, nunca, se passeiam no shopping de fato de treino.

 

Controla a má língua `Na. Envenenas-te no teu próprio veneno, lagartixa demasiado observadora.

By the way, não é o vestido dos 250, mas é lindo maravilhoso.