Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

A desilusão num olhar

   Quando se convive com crianças, convive-se também com a família dessas crianças. E nessas famílias há de tudo um pouco. Desde as chamadas "famílias tradicionais", às não tão tradicionais, mas cada vez mais comuns, isto é, famílias de pais separados. E aqui temos separações mais ou menos simples, mais ou menos amigáveis.

   A C. tem 7 anos. Filha de pais separados. O pai abandonou-a e à sua mãe à uns 6 anos na Holanda. Mãe e filha regressaram para Portugal. O pai por lá ficou, desaparecido durante uns anos e tentando aproximar-se da filha uns anos mais tarde, sendo mais os períodos de ausência do que de presença.

   A C., que tem apenas 7 anos e a inocência de quem pouco entende do muito que já viveu, disse-me: "Hoje é o dia mais feliz da minha vida. O meu pai está em Portugal e vem aqui buscar-me pela primeira vez na vida. Vem às seis e meia. Mal posso esperar". Os olhos brilhavam tanto como o coração e o sorriso. As perguntas eram constantes, mas sempre a mesma "Que horas são?". Era notória alegria daquela criança que tantas vezes se agarrou a mim simplesmente para ali estar, que todos os dias me diz "Posso sentar-me ao seu lado?", que tantas vezes assiste às brincadeiras em vez de participar nelas. Hoje era uma C. exctida, alegre, feliz. Completa. As seis e meia chegaram...e passaram. A ânsia dela aumentava. Até que chegou a hora de ir embora. E a hora da desilusão. Vi-a correr pelo corredor fora com um sorriso rasgado. E o meu coração apertado, apertado. Num segundo o mundo dela desabou. Era a mãe que estava à sua espera. A companheira de todos os dias, de sempre. A pergunta impôs-se: "O pai?". E o olhar da mãe, um olhar habitué nestas situações, o olhar de quem já tudo (ou melhor, nada!)  espera do pai da sua filha. E o olhar da C. a dirigir-se para o chão, juntamente com o sorriso, a alegria, toda a felicidade e mais um pedacinho da sua infância. Não chorou. Mas os olhos estavam carregados de lágrimas. E senti que todo o meu auto-controlo foi para ali chamado. O meu coração desfez-se ao ver aquela criança gerir (mais) uma desilusão com uma figura fundamental: o seu próprio pai. A mãe exigiu uma explicação telefónica e exaltada ao dito senhor. Acusou-o de ser "o mesmo de sempre", de "não ser pai", de "magoar constantemente a filha". E a filha assistiu a tudo isso, habituada à ausência do pai e aos pedidos de explicações exaltados da mãe.

   E eu pergunto-me: que pai é este? Qual é o pai que abandona uma filha? Qual é o pai que destrói assim os sonhos de uma criança, despedaça assim um sorriso e um coração em 1001 bocadinhos impossíveis de voltar a unir? Ninguém merece aquele olhar, aquela tristeza, aquela desilusão. Tudo isto aos 7 anos de idade. Uma criança! Com a força de uma leoa.

   Partiu-me o coração. Não foi pena da C. Foi revolta, indignação, incompreensão. Vergonha, por existirem seres da estirpe daquele senhor, que não é pai. De certeza que não o é. Ser pai e ser tudo em tudo, a qualquer altura, em qualquer lugar, independentemente das diastâncias e das circunstâncias da vida. Ser pai é encher olhares de sorrisos, não de lágrimas.