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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Ensaio sobre a cegueira

   Vi o filme. Gostei. Fiquei curiosa para ler o livro. Li o livro. Gostei ainda mais. E depois de ler o livro fiquei a gostar ainda mais do filme a admirar o trabalho do realizador Fernado Meirelles, que conseguiu fazer um trabalho notável e bastante fiel ao texto de José Saramago. Compreendo agora as lágrimas deste ao ver o filme do seu livro pela primeira vez. Esta lá (quase, quase) tudo.

   Ficam as palavras de Vítor Aguiar e Silva, que tudo dizem:

   «A cegueira é a metáfora da desumanização e da indignidade do homem. Com ela, irrompem os demónios e os monstros apocalípticos: a fome, a violência, a crueldade, a bestialidade...O manicómio desactivado onde são encerrados os cegos e os contaminados é a metáfora dos campos da morte da nossa excruciante memória histórica contemporânea. A sujidade nauseabunda dos corpos, das camaratas, dos corredores e das sentinas do manicómio e o cheiro pestilencial que envolve e mortalmente abafa toda a cidade são metáforas do apodrecimento do homem. O manicómio e a cidade fantasmática, no seu horror absoluto, são a visão sublime e grotesca da aflição, do sofrimente, da indignidade e da loucura dos homens. Na igreja, as próprias imagens de Cristo e dos santos têm os olhos tapados com uma venda ou com uma grossa pincelada branca, metáforas terrificantes da ausência de Deus.

   No meio, porém, desta catástrofe horrenda, no meio de tanta miséria física e moral, de tanta dor e tanta aflição, a esperança do homem ainda guarda sentido, alimentada por uma tenaz consciência moral, pela capacidade espantosa de sacrifício e pela generosidade de alguns. (...) Na única mulher que não cegou, a mulher do médico, encontro eu a metáfora do espírito da esperança. Como um novo Moisés, ela soube conduzir a sua tribo à sua casa. E após a expiação, o sofrimento inumano e a morte de muitos, os cegos começaram de novo a ver...

 

| SE PODES OLHAR, VÊ. SE PODES VER, REPARA |

Ensaio sobre a cegueira

 

   E se, de repente, não vissemos nada mais do que branco? Tudo branco. E se esse "mal branco" se tornasse uma epidemia de cegueira que, um a um, vai destruindo a humanidade? E nós, o que fariamos, como reagiriamos, o que sentiriamos? E se no meio de tanta cegueira, uma única pessoa continuasse a ver? Não sentirá ela que tem de ajudar, sendo a guia de todos e cada um? Quantas vezes não terá desejado não poder ver aquela nova realidade cega?

   "O ensaio sobre a cegueira" é um filme forte, sujo, escuro, um retrato negro (mas nem por isso pouco realista) da humanidade que nós somos. "Blindness" é um filme de pormenores, de imagens que não se conseguem ver. A cegueira faz-nos pensar qual a verdadeira essência do ser humano e de SER humano, até onde vai o espírito de sobrevivência.

   E afinal, mais cego é aquele que não quer ver, por isso, quando aprenderam a valorizar cada pormenor que o seu olhar captava, o branco deu lugar à cor, forma e movimento. Chegou uma segunda oportunidade. Uma nova vida. O que mudou?

 

   Nas adaptações de livros para o cinema, o filme deixa sempre algo a desejar. Não há nada como umas boas palavras para nos pôr a imaginar cada pormenor, cada cenário, cada personagem. No cinema está ali tudo chapadinho. É tudo demasiado concreto. Não há lugar para a imaginação. Quanto muito haverá para a reflexão. 

   Ao contrário do habitual, ainda não li o livro. Mas fiquei curiosa. Já está na minha lista de Natal! Com certeza me irei surpreender. Saramago que me desculpe, mas só li um livrinho do nosso Nobel de estimação.