Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Primeiro tu

Primeiro tu – depois os outros. Sim: primeiro tu – depois os outros. Diz comigo sem temeres ser atacado pelos velhos do Restelo, pelos politicamente correctos, pelos egoístas que querem domar (à imagem do seu egoísmo) o egoísmo: primeiro penso em mim, em eu estar bem comigo, em eu estar saudável, forte e feliz – e depois, sim, penso nos outros. Não porque sou – como podem dizer os tais que não vêem a ponta de um corno à frente dos olhos (ou melhor: os que só vêem a ponta de um corno à frente dos olhos) – um cabrão, um sacana, um egocêntrico. Não. Nada disso. Primeiro eu e depois os outros – porque só estando eu bem, saudável, forte e feliz é que poderei ajudar os outros a estarem exactamente como eu estou.

Pedro Chagas Freitas, "Eu Sou Deus"

«Eu Sou Deus», Pedro Chagas Freitas

image.jpg

Desconcertante, Pedro Chagas Freitas ensina-o, no seu estilo irreverente e único, a olhar para o mundo de um ângulo completamente diferente. Um ângulo que elimina, sem misericórdia, conceitos e percepções que você julgava intocáveis.
EU SOU DEUS não é sobre fazer as coisas direitas - mas sim sobre ir ao encontro do seu direito. O direito a respirar, o direito a pensar, o direito a ser. O direito a viver.
EU SOU DEUS não é sobre aquilo que você não pode fazer - mas sim sobre aquilo que você pode, e deve, fazer. Você pode sentir medo, pode sentir inveja. Você pode sentir aquilo que o mundo insiste em dizer-lhe para não sentir. Você pode ser o seu mundo. Por isso: porque não mudar o mundo?
EU SOU DEUS não é um livro de auto-ajuda. Mas se você o ler pode auto-ajudar-se. Tenha cuidado.

___________________________________________________________

     Os excertos de crónicas de Pedro Chagas Freitas inundam as páginas sociais, por isso não admira que os seus livros vendam tanto. O estilo "crónica" não é o que eu mais gosto de ler; é daquelas coisas que vamos lendo, um bocadinho aqui um bocadinho ali, aproveitar pequenos momentos livres. PCF sabe escrever. É um facto. E sabe escrever sobre basicamente tudo. Ou se preferirmos, sabe escrever sobre tudo o que é a vida. Sem cair em dramatismos ou romantismos excessivos, as suas palavras fazem sentido e têm significado. É claro que tem os seus momentos de loucura e de vez em quando lá saem textos menos interessantes e até um pouco repetitivos, que nos fazem fechar o livro durante um dia ou dois, mas na generalidade há sempre algo de positivo para se retirar das suas palavras. 

   Um livro para ir lendo, saboreando, sublinhando e reflectindo. 

Subfelicidade

1511303_568262989922176_1185006664_n.jpg

O que mais dói é a subfelicidade. A felicidade mais ou menos, a felicidade que não se faz felicidade, que fica sempre a meio de se ser. A quase felicidade. A subfelicidade não magoa – vai magoando; a subfelicidade não martiriza – vai martirizando. Não é intensa – mas é imensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar – mas em silêncio, em surdina, em anonimato. Como se não fosse. Mas é: a subfelicidade é. A subfelicidade faz-te ficar refém do que tens – mas nem assim te impede de te sentires apeado do que não tens e gostarias de ter. Do que está ali, sempre ali, sempre à mão de semear – e que, mesmo assim, nunca consegues tocar. A subfelicidade é o piso -1 da felicidade. E não há elevador algum que te leve a subir de piso. Tens de ser tu a pegar nas tuas perninhas e a subir as escadas.

(...)

A subfelicidade é uma tristeza. Uma tristeza de hábitos, de rotinas, de sorrisos – uma tristeza que inibe a surpresa, o imprevisível, a gargalhada. Uma tristeza que te faz refém do que fazes e te impede de te seres o que és. Olha em redor: a toda a volta há pessoas subfelizes, pessoas que dizem “vai-se andando”, pessoas que dizem “tem de ser”, pessoas que dizem “eu até gosto dele”, pessoas que dizem “sou feliz” com os olhos cheios de “queria ser feliz”, pessoas que dizem “é a vida”. Mas não é. A vida não é a quase felicidade. A vida não é a subfelicidade.

Pedro Chagas Freitas, "Eu Sou Deus"

 

Ainda que nos (vos) custe admitir, a subfelicidade é o estado comum da maioria dos mortais. Temos momentos felizes, estados felizes, dias felizes, mas a maior parte do tempo conformamo-nos com o que a vida nos vai dando e, raramente, ou poucos de nós, passam de momentos de felicidade para uma vida de felicidade, que será, provavelmente, das tarefas mais difíceis (e desafiantes) desta existência. 

 

10574535_10201241133030541_4103961501568234009_n.j

Sê um construtor de momentos inesquecíveis, de momentos que vais querer, tal como quiseste vivê-los, recordar. Momentos que vais querer recordar incansavelmente, demencialmente. 

(...)

Sê, todos os dias, o dia que nunca vais esquecer  - o dia que vais para sempre recordar. 

Pedro Chagas Freitas, "Eu Sou Deus"

Sê fácil

tumblr_ln0k2ajoeq1qb8fq6o1_500.jpg

Manda uma cabeçada à Mike Tyson nas lérias que te ensinam a não seres fácil perante quem amas. Se amas: sê fácil. Abre os braços, abre as pernas, abre a boca: abre-te para quem amas. Se amas: não compliques. Se queres um beijo, beija; se queres um abraço, abraça; se queres um orgasmo, despe e sala e dança e sua e geme. Se queres amar: ama. Não olhes a convenções. Prefere as pulsões. Prefere os corações, as animações - até mesmo os neutrões. Liga-te à eletricidade, liga-te à corrente: sê a tua corrente. Esquece as cirrentes de pensamento que te fecham as portas, esquece as correntes de preconceitos que te ofuscam o desejo, esquece as correntes de medos que te castram o sentir. Se amas: sê fácil. 

Pedro Chagas Freitas, "Eu sou Deus"

Sai da fossa

saia_da_fossa.jpg

Se estás na merda, se alguém te magoou, se alguém te abandonou, se perdeste alguém que amas: não caias na treta de que é importante digerires a cena, na bullshit de que é decisivo que assimiles o que aconteceu antes de avançares. Manda encher de moscas os que te dizem isso. E sai. Sai da fossa. Lava-te bem lavadinho, veste-te bem vestidinho. E sai. Sai para a rua, para o mundo. Sai para a vida. Vai viver – antes de que sejas tu o que se perdeu e não aquele que ficou sem aquele ou aquela que se perdeu. Vai. Sai de ti, sai para lá – e sai de cá. Cá, o buraco, a depressão, o “chora que faz bem”, o “sofrer é bom para crescer” que vão dar banho ao cão. Eles que vão sofrer e que te deixem abdicar de sofrer como eles julgam que deves sofrer. Sofrer é sempre – por mais acompanhado que estejas, por mais por fora que estejas – a sós. És tu e o teu sofrimento. Tu e o que te dói. E o que te dói tem de ser, em ti, suportável: vivível. E o vivível, em alguns momentos, exige movimento: exige manobras de diversão. Exige que mandes bugiar a fossa, a necessidade de reflexão – e que te obrigues a estar em pressão: em de pressão. De pressão de agires, de fazeres, de correres, de saltares, de dançares, de cantares. Caga na fossa, na depressão, na música que te lembra o que foi bom e já não existe, nas memórias, nas fotografias, nas lágrimas que não param de correr. Corre, isso sim, tu. Corre para fora de ti – mesmo que nunca deixes de, com isso, mergulhares em ti. Esquece os paleios das psicochachadas da auto-descoberta, da auto-elevação, da importância das pedras no caminho. As pedras no teu caminho servem, mais do que para fazer um castelo, para atirares aos cabrões ou cabronas que te queriam ver fechado numa cave a chorar que nem um bebé abandonado.

Pedro Chagas Freitas, "Eu Sou Deus"

 

Um resto...

"Naquele gato, atropelado por ser gato e querer correr e querer andar e querer viver, estava toda a solidão de um mundo. Toda a solidão de um mundo que passava por ele e não olhava, de um mundo que passava por ele e não sentia. E ali ficou uma morte, um gato negro pintado de sangue, a ser pisado e repisado pelas rodas dos carros e das motas dos humanos, e aos poucos, o gato deixou de ser gato e deixou de ser ossos e deixou de ser vida morta, e aos poucos o gato passou a ser uma coisa, um dejecto, um resto."

Pedro Chagas Freitas, "Eu sou deus"

As crianças de hoje

O mundo, o dos adultos e das crianças, é exactamente igual: estupidamente igual. Há que brincar, cair, magoar, levantar, voltar a brincar, voltar a cair, voltar a magoar, voltar a levantar. E a ordem pode ser trocada mas é sempre a mesma. Há que doer para viver: e até doer dá sabor a viver. É de pequeno que se percebe o caminho. E no caminho há que levantar sozinho. E não existe não levantar sozinho: quando cais, só podes levantar-te sozinho. Por mais mãos que te puxem, por mais braços que te agarrem: quando te levantas, levantas-te sozinho. E as crianças de hoje não se sabem levantar - porque os pais as impedem de cair.

As crianças de hoje não sabem o que é viver. As crianças de hoje são crianças de aviário - crianças que nunca saíram do fraldário. As crianças de hoje não sabem o que é viver porque viver é correr riscos. E correr riscos não é subir mais um nível no último jogo da Playstation ou da Wii.

 

Pedro Chagas Freitas, "Eu sou Deus"

 

Olha o subsídio!

Um desempregado sem subsídio é como um náufrago sem bóia. E um náufrago sem bóia sabe que tem de nadar muito mais depressa do que um náufrago com bóia. E nada. Nada mesmo. E vai mais longe do que algum dia chegou, e até nada crawl se for preciso - mesmo que nunca tenha nadado crawl. Um náufrago sem bóia nada mesmo que nunca tenha nadado na vida. Um náufrago sem bóia nada mesmo que não saiba nadar. É a necessidade que aguça o engenho. E é a precisão que esmiuça a inércia. Não penses que sou contra ele, o subsídio de desemprego. Nada disso. Acredito que pode, em algusn casos, ser útil. Sobretudo nos casos em que quem o recebe está, ainda, a perceber o mal que o sacano do dinheirinho certinho na conta, sem mexer a ponta de um dedo do pé, lhe faz. Não lhe faz.

Pedro Chagas Freitas, "Eu sou Deus"

 

   Faço minhas a totalidade destas palavras, duras mas diretas e reais. Em muitos casos, existir um subsídio, seja de desemprego, seja um RSI, é o maior obstáculo à procura de emprego e o maior promotor da chamada "boa vida à nossa custa". 

Respect

quote-Maya-Angelou-if-we-lose-love-and-self-respec

 

A falta de respeito é o problema do mundo. Respeito por mim, por ti, pelo cego que canta e pede esmola, pelo gato vadio que se atravessa numa estrada. Já não há respeito. Já não há respeito porque tudo deixou de nos dizer respeito. É tudo distante, é tudo lá - e nunca cá. E a sociedade global que nos venderam como uma aldeia global é, na verdade, uma sociedade visceral - uma sociedade de trampa. A aldeia global, apesar de unir (e eu e o mundo estamos à distância de um clique), aparta - aparte irreversivelmente. E eu e o mundo, apesar de estarmos à distância de um clique, não passamos disso - não passamos de estar à distância de um clique.

Pedro Chagas Freitas - "Eu Sou Deus"