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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Porque morrer tem de ser uma opção de vida

   Nunca se falou tanto de eutánasia, de morte digna, do direito de escolhermos morrer. Este sempre foi um tema que me interessou e a minha posição sempre foi clara e direta: SIM, viver também é poder dizer "eu não quero mais", que na realidade se traduz num "eu não aguento mais". Não se trata de banalizar a morte ou desprezar a vida. Não se trata sequer de apoiar qualquer espécie de suicídio (onde aliás a minha posição é também e desde sempre clara e direta: absolutamente e cobardemente errado). Trata-se de tornar a vida uma vida que pode ser vivida até ao fim. Uma vida que é vida e que desagua sempre e inevitavelmente na morte, mais ou menos dolorosa, mais ou menos morosa. Mas uma vida que deixou de ser vida não é uma vida que mereça ser vivida. Uma vida de sofrimento físico, de dor que nem os melhores avanços da medicina conseguem aliviar, uma vida em que tudo o que deveria ser natural e automático em nós é assistido, uma vida destas já não é vida. Já não é nada e ainda nos arriscamos a que anule e apague tudo aquilo que antes foi vida em nós. 

   Acerca deste assunto ouvi alguém dizer que o velho cliché do "só quem passa por isto é que compreende". No caso, uma mãe cujo filho de 15 anos, diagnosticado com um tumor cerebral severo, disse um dia "não quero mais quimioterapia, por favor, deixem-me partir". A sua vontade foi respeitada e o jovem morreu ao fim de vários dias de dores insuportáveis, mas provavelmente com alguma paz na alma por a sua vontade ter sido respeitada. Não estamos aqui a falar de eutanásia pura, mas não teria este jovem direito a ter partido sem passar pelo sofrimento desumano por que passou? Só quem passa por isto...

   Eu nunca passei por isto nem por nada semelhante. Mas, profissionalmente, já vi muita coisa. Já vi muito sofrimento. Já vi muitas vidas que há muito deixaram de o ser. Já ouvi muitas vezes "por favor Senhor, leva-me". Tenho neste momento um utente de pouco mais de 40 anos, seropositivo, acamado há vários anos, cujo corpo está literalmente a apodrecer, sujeito a dores atrozes, com uma mente dolorosamente consciente, que repete incansavelmente "Leva-me. Leva-me". Até quando é que vamos ter de esperar pela intervenção do divino para acabar com o sofrimento humano? Até quando vamos continuar a proclamar o prolongamento de existências que já não são nem nunca mais serão vidas humanas, vendendo a ideia de que os nossos cuidados de saúde têm resposta para tudo e que toda a gente parte serena e calmamente? Até quando é que vamos continuar a ser prisioneiros da doença? 

   Não sou a favor da banalização da eutanásia. Não concordo que seja a resposta para todos os males. Não concordo que seja permitida em todos os casos que manifestem essa vontade. Não concordo sequer que esta seja aplicada em casos de sofrimento psicológico supostamente insuportável, como em alguns países é permitida. Concordo sim que, quando devidamente estudada, fundamentada, justificada e consciente, morrer seja uma opção de vida, porque há casos em que a morte é a única, a única, forma de uma vida ser uma vida digna. 

 

A eutanásia e a vida

   Um canal nacional ofereceu-nos hoje um interessante debate sobre um não menos interessante (mas polémico) tema: a Eutanásia. A minha posição face a este tema é a mesma que face a muitos dos temas mais polémicos da actualidade. Sou a favor da liberdade individual. E sou a favor da vida. Da vida que pode ser vivida enquanto vida. Da vida que nos permite ser gente até ao fim. E que vida é essa a que aqueles que vivem há anos confinados a uma cama, alimentados por mãos que não são as suas, que respiram um ar que não é o seu, têm? Será vida aquilo que uma criança de 12 anos em estado vegetativo persistente desde os 9 anos sente?

   Eutanásia não é matar. Quem diz "deixa-me partir" não quer dizer "despacha-me". Quer dizer "ajuda-me a dar sentido a uma vida que perdeu todo o seu sentido". A Eutanásia pode ser uma resposta para a vida que já terminou muito antes da morte. A resposta que os cuidados paliativos deveriam ser capazes de dar e não dão. Depois da dor física controlada, quem controla a dor da alma? Quem controla a consciência que nos atormenta com a verdade da nossa condição?

   Cultural e moralmente falando, Portugal não está pronto para o referendo. Não podemos pedir aos portugueses que digam sim ou não, quando para muitos eutanásia é sinónimo de matar em jeito de homicídio. Se não estamos prontos para um referendo, estaremos com certeza prontos para investir na saúde dos nossos. Se não queremos "ajudar a morrer", temos de querer melhorar a resposta aos doentes terminais. Mais serviços de cuidados paliativos. Ainda que, para mim, isto não seja resposta ao pior sofrimento humano, poderá ser resposta ao físico.

   Não sou a favor da banalização da Eutanásia e da sua prática só "porque sim" ou porque "assim poupa trabalho". Sou a favor de uma análise cuidada e precisa da consistência de cada pedido de ajuda. Da procura de respostas que minimizem o sofrimento. Sou a favor da dignidade da vida. E uma vida que não pode ser vivida, que não deixa viver, deixou de ser uma vida e passou a ser uma morte antecipada e dolorosamente prolongada pela ética.