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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Porque há 70 anos, o holocausto foi uma realidade do homem para o homem

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 Mas para onde vamos, não sabemos. Conseguiremos talvez sobreviver às doenças e escapar às selecções, talvez também resistir ao trabalho e à fome que nos consomem: e depois? Aqui, momentaneamente afastados das blasfémias e das violências, podemos voltar a nós próprios e meditar, e é então que se torna claro que não teremos regresso. Viajámos até aqui nos vagões selados; vimos partir em direcção ao nada as nossas mulheres e as nossas crianças; reduzidos a escravos, marchamos mil vezes para trás e para diante, numa fadiga muda, já apagados nas almas antes da morte anónima. Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschtwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem.”

Primo Levi, "Se isto é um homem"

 

Histórias com gente (e guerra) dentro

   Tenho lido alguma coisa sobre o Ultramar e sobre os nossos portugueses que foram para lá combater e a maior parte das vezes não consigo deixar de ficar impressionada com o que fico a conhecer e com os relatos de quem por lá passou.

   Ao longo da vida todos nós conhecemos uma ou outra pessoa que "estiveram na guerra", uns mais comunicativos que outros sobre essa fase das suas vidas. Graças à minha profissão tenho contactado mais de perto com ex-combatentes e alguns deles têm conversado comigo abertamente sobre essa época. O que eu nunca tinha conhecido era um ex-combatente que trouxe a pior das feridas da guerra: a perturbação de stress pós-traumática. Já tinha conhecido um ou outro que diziam sofrer desse mal, mas que sempre se mostraram mais ou menos organizados. Recentemente recebemos num dos nossos centros de dia mais um ex-combatente com esse diagnóstico. Até ontem nunca me tinha apercebido no Sr. A. nada longe do que habitualmente encontro nestas pessoas. Até ao Sr. A. começar a gritar frases como "Chega-me a arma, chega-me a arma, estamos a ser atacados" ou "baixem-se, protejam-se", enquanto chorava como um bebé e alternava entre momentos de total alucinação e de consciência do seu estado. Mas o que mais me impressionou foram os relatos sofridos que depois o Sr. A. me fez de alguns momentos por que passou em Angola...os combates, os ataques, a morte dos seus companheiros e do povo...e tudo isto enquantochorava compulsivamente e me questionava "E para quê? Para quê, doutora?"...

   Todo o sofrimento humano é questionável, mas este sofrimento, o sofrimento da guerra, deve ser daquelas feridas abertas que nunca cura e que não mais nos deixa viver...como o Sr. A. ontem me dizia "isto está cá dentro, eu estive lá, eu matei e vi morrer, eu estive lá, e agora isto está cá dentro da minha cabeça e nunca sai, nunca sai, nunca vai sair, percebe?". Não sei se percebo, Sr. A., porque felizmente nunca passei por uma experiência tão traumática, mas respeito-o e partilho um bocadinho do seu sofrimento, que é a única forma de ajuda que tenho para lhe oferecer.

A verdade do mal

«O que quero dizer é que a questão do bem e do mal sempre gerou mais perplexidade do que certezas. (...) O que é o bem e o que é o mal? Todos nós intuímos estes conceitos, mas a sua definição precisa escapa-nos. Até hoje. (...) Tive a resposta a este enigma no momento em que vi o mal naquela aldeia. Vi-o impregnado nos corpos carbonizados que se espalhavam pelos escombros, vi-o quando me questionei sobre o que levaria os homens a fazerem uma coisa tão cruel. E depois deparei-me com uma criança que saiu viva e intacta de baixo do corpo queimado de uma desgraçada que os soldados quase haviam morto e percebi que há coisas que o mal, por mais que tente, não poderá conquistar. O amor daquela mãe foi mais poderoso do que o mal daqueles homens, Mas só agora, enquanto estava aqui a ouvi-lo falar, é que consegui transformar em palavras a ideia que desde então me andava a ruminar na mente. (...) Sabe o que na verdade é o mal? (...) É a incapacidade de nos pormos no lugar do outro. Quando os soldados matam mulheres e crianças como quem mata formigas, estão possuídos pelo mal porque não conseguem pôr-se no lugar das vitímas, não conseguem perceber a posição delas nem sentir o que elas sentem. O mal é a incapacidade de imaginar os sentimentos do outro e de os sentir como se pudéssemos ser nós.»

José Rodrigues dos Santos, "O Anjo Branco"