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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Histórias com gente dentro

   Imaginem que aos 25 anos recebiam um diagnóstico de esclerose múltipla. Como reagiriam? Qual seria o significado da vida, ou de viver, a partir daí?

   Hoje conheci a Sra. L., de 48 anos, que vive com um diagnóstico de EM desde os 25 anos...não posso dizer que a Sra. L. seja um exemplo do bem viver quando a vida nos oferece um presente destes...a Sra. L. está completamente entregue à doença, sem aquele discurso optimista que serve de enredo a bonitos filmes de Hollywood. A Sra. L., simplesmente, tem uma visão completamente realista em relação ao seu estado, à sua doença e ao seu futuro que, basicamente, não é nenhum. É uma pessoa amorosa, com quem conversamos sem dar pelo tempo passar, com um sorriso delicioso e um brilhozinho no olhar. É uma pessoa que hoje já aceitou a sua condição mas que nunca vai aprender a viver com ela. E é uma pessoa com remorsos do que não viveu com medo de agravar o seu estado ou acelerar a sua evolução e que vai morrer com a sensação de não ter vivido. E com razão. Com muita razão.

   Mas a Sra. L. é feliz. É feliz porque tem o amor ao seu lado há quase 25 anos. Um amor incondicional, puro, verdadeiro e enorme. O amor de um homem que passou a viver para a sua esposa e em função dela e das suas necessidades, ao ponto de deixar de trabalhar para cuidar dela 24h por dia, o que os obrigou a muitas alterações no seu estilo de vida. Ver este casal é uma das mlehores coisas do mundo, já que o sentimento que os une é completamente visível na troca de olhares, na cumplicidade, nas brincadeiras constantes, mas também nos olhos dele que se enchem de lágrimas ao relembrar determinados momentos e a projectar um futuro incerto.

   Não tenho dúvidas que um dos motores que move a Sra. L. é este amor. Tudo o resto é nada e a certeza de que será sempre a piorar, dia após dia, no sentido de uma dependência cada vez maior, para alguém que aos 48 anos já não é capaz de caminhar ou de fazer o que quer que seja sozinha. Talvez a frase mais dramática e que resume tudo isto seja esta: "Não há nada pior que esta doença. Eu nem sou capaz de me matar! E o pior é que vou estar consciente disso até ao último dia". Não vale a pena dizer mais nada.

Histórias com gente dentro

  A Sra. M. tem 48 anos (repito, 48 anos) e sofreu em Janeiro deste ano um AVC isquémico gravíssimo, do qual resultou hemiparesia direita que a impede de mover a perna e o braço direitos, comprometimentos da fala e alguns défices cognitivos ao nível da produção do discurso, nomeação, sequenciação, compreensão de frases longas e passagem do discurso interno a palavras, já para não falar da grande instabilidade na exteriorização das emoções.  

   A Sra. M. está totalmente dependente, embora não esteja acamada. Está dependente dos nossos serviços e do apoio dos seus dois filhos, de 22 e 26 anos. A Sra. M. tem idade para ainda "cuidar" dos filhos, mas naquela casa, quem precisa de ser cuidada é ela.

   A Sra. M. sofreu um AVC gravíssimo aos 48 anos e nada o fazia prever. Sem antecendentes ou factores de risco. Levantou-se de manhã, preparou-se para sair, despediu-se dos filhos que sairam primeiro. O filho encontrou-a no chão e seguiram 8 longos meses de internamentos em hospitais, unidades de cuidados continuados e unidades de recuperação.

   Conheci a Sra. M. na quarta-feira, passei a tarde com ela e com os filhos e só conseguia pensar no que será a vida de uma mulher que aos 48 anos fica totalmente dependente dos filhos e no que será a vida daqueles dois jovens que veem a mãe em tal estado. Tenho um medo enorme dos AVCs (um dia destes passei creme da cara pelos lábios sem querer e perdi a sensibilidade de parte do lábio e estive prestes a chamar o VMER), ver e conhecer este caso deixou-me doente. Assustada. E revoltada. 48 anos. 48 anos. Não somos mesmo nada neste mundo.

A vida com histórias de final feliz

 

   Gosto de uma boa história. Seja ela de um livro, de um filme, de uma série ou até mesmo de uma telenovela (quem não dá uma espreitadela numa ou outra? Confesso que o faço mais para uma análise do guarda-roupa e outras para análise do comportamento humano, já que muita boa gente tende a tomá-las como modelo de comporamento). Gosto de me deixar envolver, de conhecer as personagens, de ver o evoluir da história, de imaginar o que se passará a seguir e qual será o final. Mas não gosto de estar a viver o meio da história e começar a perceber imediatamente o final que ela terá. Tira-lhe a magia do inesperado. Pior que isto é constantar que esses finais são sempre, ou quase (quase) sempre, finais felizes. É o típico "tudo está bem quando acaba bem". Os maus da fita são castigados e os bons da fita ganham o prémio do felizes para sempre. E depois há a questão dos casaizinhos...podem ter passado por mil e uma adeversidades, podem ser os seres mais incompatíveis do mundo, podem até padecer de doenças gravíssimas de cura quase impossível, mas uma qualquer força superior junta-os sempre no final, com direito a casamento de sonho e quartinho de criança para decorar.

   Não menosprezando estas histórias, questiono-me onde reside a realidade em todas elas? A vida não é um conto de fadas com um inevitável final feliz. Na vida nem sempre o provérbio "Depois da tempestade vem a bonança" ocorre. Na vida real, nem sempre o bem triunfa, as doenças nem sempre se curam milagrosamente, o amor nem sempre vence. Na vida de todos os dias, inesperado e imprevisível são os adjectivos que melhor a qualificam. E é isso que a torna tão fascinante de viver e tão intensa.

   As histórias com final feliz alimentam-nos os sonhos e é por lá que devem ficar. Nos sonhos. Nos sonhos que nos fazem sonhar com a cabeça nas nuvens...mas os pés bem assentes na terra.