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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Histórias com gente dentro

   Hoje fui pela primeira vez confrontada com a situação de ter uma idosa à minha frente que esta noite não teria onde dormir, depois de ter sido colocada fora de casa pela sua família, que de família tem realmente muito pouco. Sim, em pleno século XXi temos "famílias" que nos dizem coisas como "ela não entra mais lá em casa, nós não a queremos lá e vamos pôr as coisas todas dela cá fora ou no lixo", estando completamente desinteressadas relativamente ao local onde a idosa, com quase 80 anos, passará a noite.

   Não querendo entrar em pormenores sobre o historial desta família e desta idosa, que acreditem é bastante longo e confuso, ao ponto de, a partir de hoje, passar a ser caso de polícia e tribunal, o que me custa mesmo é saber que há gente capaz de tratar assim alguém que, tendo os piores defeitos do mundo e o pior feitio dos arredores (porque acreditem que a idosa é uma pessoa extremamente complicada e, especialmente, perigosamente mentirosa, não sei se por compulsão ou demência) até é nossa mãe e/ou avó.

   Claro que, como seria de esperar, barramos contra as burocracias da nossa querida segurança social e da suposta rede de emergência social que perante situações de emergência demora demasiado tempo a actuar, isto se chegar sequer a fazê-lo. E a idosa lá continuava, ao final da tarde, sem local onde pernoitar, porque ao telefone nos diziam qulauqer coisa como "isto não é assim às duas pancadas que aceitamos qualquer um numa instituição para pernoitar". Realmente, isto de ter uma rede social que em vez de abrir portas coloca grades nas janelas não é para qualquer um...

   Valeu-nos a excelente actuação do chefe F., da equipa de policiamento de proximidade da freguesia, que acionámos de imediato e que foi incansável nos contactos e no apoio na resolução do caso, assumindo a total responsabilidade pela idosa. De louvar.

   Neste momento, não sei que seguimento teve o caso. Simplesmente porque me obriguei a desligar do mesmo. Chega a um ponto que as coisas deixam mesmo de depender de nós e não há mais nada que possámos fazer. Obriguei-me, por isso, a sair de lá e desligar-me da idosa e da situação, vingando-me numa excelente aula de Body Pump. Poderá ser frieza. Para mim é a única forma de fazer o meu trabalho diariamente com um sorriso na cara e cheia de coisas boas e positivas para dar aos meus velhinhos. Não posso carregar o peso desta idosa e da sua história cá dentro e continuar a viver como se nada fosse. Se não for capaz de carregar no botão Off, as noites são em branco e o pensamento está neles, em cada um dos idosos que conheço e que sofrem diariamente. É, acima de tudo e apenas, uma forma de sobreviver e continuar a acreditar.

   A primeira coisa que vou fazer amanhã de manhã é ligar a saber do estado das coisas. E depois desligo o botão outra vez e quem sabe o telemóvel...