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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Histórias com gente dentro...

   Quando ouvimos da boca de alguém com mais de 70 anos "Eu nunca fui feliz" e, conhecendo a história de vida deste alguém, sabemos que estas palavras têm tanto de duro quanto de verdadeiras, ficamos a pensar que às vezes a vida é a coisa mais complicada de ser vivida. 

   E que, na vida, nem tudo depende de nós, porque a vida pode ser traiçoeira, apesar da nossa garra e da nossa vontade de viver e lutar e viver e lutar e viver... e injusta, sobretudo injusta.

   Uma vida que nunca foi feliz não é uma vida que valha a pena ser vivida. Não é a vida que escolhemos viver. Mas foi a vida que nos foi dada a viver. Ou a sobreviver. A aguentar. E agora, aos 70 e tal anos, com uma vida que nunca foi vida  presa a uma cama há 14 anos, ter a certeza que nunca se foi feliz é a pior coisa que podemos levar desta vida, que nunca o chegou a ser. 

Histórias com gente dentro...

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A D. J. é a velhinha que eu quero ser quando for grande!

Hoje, em mais uma visita domiciliária, encontrei-a preocupadíssima com o facto de não conseguir fazer sozinha a sua árvore de natal. Quando temos mais de 90 anos, vivemos sós e não temos absolutamente nada nem ninguém na vida e nos preocupamos com coisas como enfeitar a casa para o Natal ou para o S. João (são os 2 momentos em que a casa da D. J. é uma miscelânea de enfeites!) só podemos ser especiais e só por isso já merecemos uma grande salva de palmas. Foi por isso que não resisti e lá andamos a montar a árvore de natal, entre luzes, fitas, bolas e muitos espirros, à procura do material necessário em caixotes carregados de pó.

No final, quando o olhar dela já brilhava mais que as luzes coloridas no pinheiro, ainda houve tempo para: "oh, que pena, agora só me falta comprar um ano velho". Perante a minha admiração, "então não sabe? Espere, tem outro nome... o velhote", "ah, o pai natal! É o pai natal, não é o ano velho, D. J.". "E então? Não é velho ele? Então é o ano velho!".

E lá vim eu carregada de sorrisos com a alegria dela por ter o natal em casa antes do fim de novembro, com duas bolas de natal para a minha árvore oferecidas pela D. J. e a clara certeza de que é muito fácil fazer alguém feliz. Hoje, era apenas isto que a D. J. precisava. Não era de conversar, de desabafar... provavelmente dos momentos mais enriquecedores da minha vida profissional.