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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Dura vida

 

   Quando vemos um traficante bater num consumidor à nossa frente, pegar nas suas coisas (que são tudo o que lhe resta), atirá-las para um buraco repleto de lixo, enquanto diz "fora daqui, não te quero aqui" (só porque não lhe comprou o "produto" a ele) e no olhar da vítima vemos apenas e só a humilhação, o vazio imenso e a tristeza de uma vida nada fácil, enquanto nos fala a medo, com a voz tremida, sumida, ausente e nos diz "oh, estragou-me a fruta toda que eu tinha para comer", sentimo-nos pequeninos e o nosso coração fica apertado, apertadinho, durante horas, horas, horas...horas...horas...pelo seu olhar, pela sua voz, pela sua postura, pela humilhação a que foi sujeito, pela reacção que (não teve), pelo ser humano desfeito e compeltamente perdido que sobrevivia à minha frente...

   A vontade? Espetar o agressor com muitas, muitas agulinhas da cabecinha até aos pés e atirá-lo ao buraco (confesso que em off, na carrinha, depois das portas fechadas e trancadas, o dito cujo foi fortemente insultado e amaldiçoado por nós, lindas meninas bem comportadas).

 

   E porque uma pancadaria nunca vem só ainda houve espaço para nova queixa, num outro bairro, cujo discurso chegou a roçar o cómico: "Oh Dra, o Pescador deu-me um estalo só porque eu não lhe respondi a uma pergunta. Mas eu sou obrigado a responder a tudo o que ele me pergunta? Ele não gosta de mim, que eu sei, é porque eu não paro ali muito com eles, mas ele vai ver, que eu tenho aí um amigo que é grande, não é assim pequenino como eu, e eu vou pedir-lhe pra lhe dar uma coça. Eu é que não quero estar a incomodar-me. Dá-me mais suminho, dá-me?"

 

Apesar de tudo, começo a gostar verdadeiramente deste trabalho e de entrar na vida daqueles que já não a têm.