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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Os lares de 3ª idade

   Ontem vi a reportagem da tvi sobre os lares de terceira idade ilegais. Acho importante mostrarem esta realidade, embora julgo que a mesma seja do conhecimento de todos. O que menos me agradou na globalidade da reportagem foi a ideia que passaram de que a institucionalização de idosos é algo negativo. Especialmente aqueles últimos dois ou três testemunhos de idosos escolhidos a dedo foram deveras deprimentes e excessivamente generalistas. Claro que se perguntam aos idosos que vivem naqueles lares ilegais onde são maltratados e onde lhes falta muita coisa, mas principalmente afecto, con certeza que os discursos serão deprimentes e negativistas. Mas tal não corresponde totalmente à realidade. Há muitos idosos que gostam realmente de viver em lares, que preferem aquela famíla adoptiva à solidão de uma casa fria, que percebem aquela decisão não como um abandono por parte dos filhos mas antes como algo que faz parte da vida e que não é negativo ou mau.

   Há lares em Portugal que são muito bons e onde os idosos são muito bem tratados, onde existe essa sensação de segunda família. E não estou a falar de lares com mensalidades exorbitantes (embora qualquer lar hoje em dia tenha mensalidades exorbitantes). Quanto aos lares ilegais, todos sabemos que existem e continuarão a existir. Não sei se a falha é só da Segurança Social, que dita os encerramentos e não os confirma a longo-prazo. Acredito que as famílias também falham em todo o processo. Em primeiro lugar, porque colocam os seus idosos em lares que sabem que são ilegais (e é relativamente fácil sabê-lo) e que, ainda por cima, os sujeitam a uma espécie de abandono acompanhado, não supervisionando a adaptação e as rotinas dos idosos naquele lar. Uma família atenta e interessada consegue perceber os sinais de uma negligência ou maus tratos, não só pelo comportamento do idoso, mas também pelas regras e dinâmicas da própria instituição e dos seus responsáveis.

    É, de facto, importante que nos mostrem esta realidade, de forma a que mais e mais pessoas estejam atentas e se interessem por estes assuntos, mas o que eu quero mesmo reforçar aqui é o papel fundamental da família e sobretudo sublinhar que a institucionalização de idosos não é um prenúncio de morte, um abandono ou um sinal de desinteresse das famílias. Como em tudo na vida, cada caso é um caso, e, por isso, há decisões correctas e erradas para cada caso. Mas que há lares bons , lá isso há. E que há idosos felizes em lares, disso não tenho qualquer dúvida.  

Institucionalização: Para um final feliz

   O internamento em lar de 3ª idade é uma mudança que exige esforço de adaptação e aceitação. Essa transição representa um impacto causado pela perda de referências e do sentimento de pertença, o que tem repercussões no estado emocional, mental, cognitivo e na saúde de quem vive num lar. A partir da admissão, a pessoa perde a possibilidade de administrar o seu tempo, o seu espaço, as suas decisões e relações. O seu querer é o querer da instituição. A vontade individual fica submetida à vontade e às decisões administrativas da instituição e a sua vida limita-se, muitas das vezes, a uma sucessão de dias prostrado num sofá.
   Esta é a ideia geral daquilo que é a vida num lar de terceira idade. Importa mudar e pôr termo a estas premissas.
   A institucionalização de idosos não tem, nem deve continuar a ser encarada como uma espera dolorosa pelo final. Há que continuar a promover a saúde dos idosos, encarando-a sempre como “um completo estado de bem-estar físico, mental e social e não apenas como ausência de doença” (OMS). Cabe-nos a nós, psicólogos e neuropsicólogos, juntamente com uma equipa multidisciplinar, contribuir para a mudança de mentalidades e realidades. Importa sensibilizar os responsáveis pelos lares para a importância da autonomia, estimulação e mobilização do idoso institucionalizado. Importa mudar a mentalidade da população que “atira” os seus velhos para a solidão. E, acima de tudo, importa motivar os nossos idosos, ensinando-lhes a viver a sua velhice de uma forma saudável e activa, longe da passividade de quem aguarda o final dos dias. Para isso, há que continuar a estudar esta população, desenvolvendo mais e melhores estudos que permitam afirmar, com cada vez mais certezas, que a institucionalização de idosos permite um final feliz.