Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

"... aqueles que o testemunhassem lá saberiam o que fazer com aquela recordação..."

images.jpg

As vítimas caminhavam angustiadas, mas longe de imaginar o que as esperava. Havia-lhes sido prometido a permanência no campo, mas, para tal, deveriam primeiro tomar banho, desinfetar-se. Iludidas com essa perspectiva, entravam no edifício do crematório, despindo-se completamente. A seguir mudavam-se para a sala dos duches, de cujo tecto pendiam várias bocas de chuveiro. Já lá dentro, aguardavam que todo o grupo fosse instalado, até que a porta se fechava hermeticamente. Apesar das mentiras em que queriam acreditar, a ansiedade ia crescendo à medida que os segundos passavam e a água não corria. Até que, finalmente, todos os demónios irrompiam pela sala ao mesmo tempo. Quando o gás começava a fazer-se sentir, os corpos fundiam-se no desespero. Todos tentavam, por todos os meios, elevar-se o mais possível, para adiar a morte. Como se pede a uma mãe que escolha entre o ar que respira e o filho que lhe pende dos braços? Como se pede a um homem solidário que o seja ainda, quando, para viver, mais uns instantes, tem de pisar o rosto de um amigo? Os gritos eram a única expressão com que se podia dizer adeus a um filho, a um pai, a um irmão... Quanto tudo terminava e o silêncio atestava a morte, esperava-se mais um pouco até se abrir a porta e expor os rostos retorcidos. O inferno cristalizara-se nas suas expressões e aqueles que o testemunhassem lá saberiam o que fazer com aquela recordação. 

"Perguntem a Sarah Gross", João Pinto Coelho