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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

(Ainda) Sobre o julgamento Casa Pia

 

   As penas atribuidas nada me dizem. O que nos deveria preocupar era a Verdade e essa estará inacessível enquanto houver gente acusada com a determinação de dizer "Eu sou inocente e vou prová-lo". É verdade que tudo isto se tornou no processo Carlos Cruz, como o próprio afirma, e, sinceramente, mesmo hoje não sei em que (ou em quem) acreditar. Acredito que existam culpados e acredito que aquele tipo de crimes ocorram na Casa Pia e em muitas outras instituições do género. Acredito que as vítimas estejam a falar verdade, ou pelo menos alguma verdade. Mas também acredito que poderão estar a mentir, primeiro porque toda a gente mente e segundo porque estamos perante personalidades fragilizadas e naturalmente vulneráveis e influenciáveis. Acredito que tenham passado por experiências extremamente dolorosas, mas também acredito que alguns poderão ter optado pelo caminho mais fácil, o do dinheiro. E não, não acredito que todas as "vítimas" sejam uns coitadinhos.

   Acredito que o "Bibi" é um homem doente, ou no mínimo perturbado, e que a fragilidade de uma infância de abusos o tenha levado a fazer aos outros o mesmo que lhe fizeram a ele. Não é desculpa, mas ajuda a compreender e atenua o julgamento público.

   Não sei se o Carlos Cruz é culpado ou não. Não me chega o veredicto de um Tribunal, principalmente quando sabemos que a justiça falha demasiadas vezes e que qualquer relato humano pode ser tudo aquilo que o emissor quiser. Mostrem-me provas concretas e eu acreditarei. Na culpa ou na inocência. Para já o que eu vejo é um homem que, ou é um excelente actor, ou foi vítima de algo que nem o próprio saberá bem o quê. Se querem que acredite numa sentença à base de relatos de vítimas, muitos anos depois, não o farei. Mais do que ninguém sei que uma mente vulnerável bem trabalhada pode acreditar e visualizar mesmo aquilo que nunca aconteceu. Há vítimas, com certeza que as há. Não precisavamos de anos e anos de um processo vergonhoso para o nosso país para o sabermos. Infelizmente é uma realidade encoberta, mas que todos sabemos que existe.

   Se algo mudou com este processo? Não acredito. Os abusos vão continuar a acontecer. Poucos serão trazidos à luz do dia, muitos serão encobertos, por este e por aquele motivo. Indubitavelmente, tudo mudou para aqueles de quem toda a gente parece esquecer-se: os familiares dos acusados, agora condenados. Independentemente do que individualmente acreditam, muito antes do dia de hoje, todos tinham sido sujeitos ao pior dos julgamentos: o da opinião pública e o dos meios de comunicação portugueses, que nestes assuntos são impiedosos e vergonhosos. Talvez se esqueçam que os acusados e as suas famílias são tão humanos como as vítimas e que tudo isto lhes provocou danos irreparáveis e mágoas eternas, já para não falar da humilhação e da vergonha e da dúvida, porque perante tudo isto ela surge com toda a força. Inocentes ou culpados, aquelas famílias foram apedrejadas em praça pública e só não houve morte física, porque, depois de todos estes anos, não há nada de bom em nós que sobreviva. A não ser a nossa convicção de que estamos e somos inocentes.

   Provem-no e apedrejem quem vos matou. Caso contrário, envergonhem-se. Estaremos todos à espera. Mas sejam rápidos. Há vidas humanas a preservar. E dessas todos se esquecem.