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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Luto

Rezar não é ajoelhar nem é falar nem é esperar. Rezar é lutar. Não é por acaso que depois de morrer alguém de quem se gosta se faz o luto. Luto. Ouve bem, lê bem: sente bem. Luto. Luto. Luto de lutar. Porque depois de te morrer quem amas ou simplesmente gostas tens de lutar. Lutar como um cão, um boi ou como uma vaca. Lutar como todos os animais do mundo lutam para sobreviverem por sobre a morte: por antes da morte. Lutar. Rezar é lutar, mexer, crer: querer. Lutar é acreditar. Mas fazer alguma coisa com esse acreditar. Acreditar de joelhos é parar. E parar é morrer.

"Eu sou Deus", Pedro Chagas Freitas

Ainda a perda...

   Quando alguém morre, o que fica em cada um de nós e no mundo é a recordação que temos da pessoa. Essa é uma recordação pessoal, muito nossa, diferente de pessoapara pessoa de acordo com a relação que manteram com o falecido, mas é sempre uma recordação interna, que não precisa de elementos externos que a potenciem ou despoletem. 

   O meu tio, viúvo há pouco mais de uma semana, depois de mais de 50 anos de casamento, regresserá em breve e aos poucos à casa onde hámuitos muitos anos vivia com a minha tia. Hoje entrei lá e deparei-me com, provavelmente, a situação que me foi mais difícil encarar e lidar durante todo este processo de luto. Ao entrar lá, deparei-me com uma casa completamente despojada de qualquer recordação física da minha tia. Nenhuma fotografia, nenhuma peça de roupa, nenhum objeto pessoal, nenhum papel que tivesse sido escrito por ela, nenhuma carta com o seu nome...fisicamente, a minha tia desapareceu completamente daquela casa. Dizem que foi desejo do meu tio e que acham melhor assim para que ele "não tenha nada aqui em casa que lhe faça lembrar da esposa". 

   Perante isto, eu faço a mesma pergunta repetidamente, porque só encontro uma resposta: mas com mais de 50 anos de casamento, mais uns tantos de namoro, depois de toda uma vida juntos, a viverem exclusivamente um para outro, acham que ele precisa de uma fotografia que seja para se lembrar da esposa? Nem vale a pena responder, pois não?

   Quando estamos afetivamente ligados a alguém não precisamos nunca de nada que nos ative a memória/recordação dessa pessoa, quando ela já não está. Quando essa ligação afetiva é tão forte como o amor de uma vida, temos um elo que nunca se quebrará, que muito menos se apagará e que nenhuma fotografia presente ou ausente poderá aumentar ou diminuir. A recordação vem e está no coração e esse fica connosco até ao fim, estejamos nós onde estivermos.

   Pessoalmente, sou contra estes "esquemas de luto". Por um lado, porque não são emocionalmente saudáveis, já que nós temos de ser capazes de viver com as manifestações daqueles que partem. Por outro porque são uma completa negação do fato de alguém ter partido desta vida, mas que nunca deixará o nosso coração e a nossa cabeça. é certo que a minha tia está dentro de cada um de nós, mas doeu-me imenso vê-la apagada daquela casa que ela sempre estimou com tanto carinho e dedicação. Num instante, parece que nunca existiu ali ninguém para além do meu tio, quando todos nós sabemos que eles serão sempre "eles" e nunca "eu" e "tu", muito menos "eu sem ti". 

A importância do luto

 

   "Choro sem parar. Todas as lágrimas que não consegui verter, no momento da sua morte, derramam-se hoje. Quanta dor recalcada! Porque, nessa altura, há sete anos, contive a minha pena, quis fazer boa figura, meti tudo dentro de mim. Como tantos outros quando estão de luto, porque na nossa sociedade não há lugar para os que choram a perda de um ser amado. Ninguém, na ocasião, me ajudou a esvaziar a minha dor. Acham anormal a depressão das pessoas enlutadas, e recomendam-lhes o médico para que lhes receite anti-depressivos. Tentam distrair-nos, fazer-nos mudar de ideias. Em resumo, querem dizer-nos que têm medo do nosso desgosto. A necessidade, em tais momentos, não será precisamente de falar de quem já não está presente, de relatar as circunstâncias da sua morte? E, é claro, isso provoca as lágrimas. É bom chorar na presença dos amigos, sentir que é tão possível como benéfico evocar em conjunto os momentos vividos com quem desapareceu para sempre. Faz bem falar das nossas mágoas, dos nossos remorsos, quando os temos, e, por que não, da nossa revolta. É tudo isso que o trabalho do luto permite, esse misterioso trabalho interior de afastamento que fará que, um dia, acordemos libertos, plenos de energia para a vida."

 

Maria de Hennezel, Diálogo com a morte