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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

África

E é por isso, afinal, que aqui estamos. Para ver de perto um mundo que deixou de ser o nosso há muito tempo atrás e onde hoje somos intrusos, desfasados das leis que outrora também nos regiam, dessas coisas iniciais que então partilhávamos com os bichos: beber antes da noite e ao nascer do dia, caçar durante o dia, proteger as crias, defender o território que é a nossa cas, e afastarmo-nos para morrer sozinhos, quando a inevitabilidade da velhice nos torna apenas um fardo inútil para os outros. E vimos então a África em aviões pressurizados, sobrevoamos num repente as distâncias que antes percorriamos caminhando durante semanas ou meses, dormimos em bungalows confortáveis, assentes sobre estacas para nos porem fora do alcance dos perigos, comemos um pequeno-almoço de luxo que nos espera depois de ir ver se as feras ainda o são verdadeiramente e levamos tudo de volta para casa, arquivado em milhares de fotografias, em cadernos de viagem, em bugigangas feitas de osso de rinoceronte ou, os mais atentos, na memória que não partilhamos, porque não é partilhável, de um pôr-do-sol vermelho de fogo na direcção dos elefantes, de uma manhã afogada num nevoeiro que só os ruídos do mato atravessam, de um frio absurdo, desumano, incompreensível, de uma alegria absurda, incompreensíve. Desumana.

«Ukuhamba», Miguel Sousa Tavares

Na solidão da velhice

«A velhice extrema, pensei, ou é uma decadência sem sentido ou uma inconsciência sem explicação. Eis um homem que viu morrer ou desaparecer quase todos à sua volta; que sabe que vai morrer em breve; que vive sozinho numa terra onde já ninguém mais vive e que tem, como companhias mais próximas de um ser humano, um cachorro, as galinhas que cria para matar quando precisa de comer, um porco e um peru qye engorda paras as minhas visitas. E, todavia, está preso às notícias de um mundo que desconhece, onde jamais viverá e que não deve fazer sentido algum para ele!»

"Madrugada suja", Miguel Sousa Tavares

«Madrugada Suja», Miguel Sousa Tavares

 

No princípio, há uma madrugada suja: uma noite de álcool de estudantes que acaba num pesadelo que vai perseguir os seus protagonistas durante anos. Depois, há uma aldeia do interior alentejano que se vai despovoando aos poucos, até restar apenas um avô e um neto. Filipe, o neto, parte para o mundo sem esquecer a sua aldeia e tudo o que lá aprendeu. As circunstâncias do seu trabalho levam-no a tropeçar num caso de corrupção política, que vai da base até ao topo. Ele enreda-se na trama, ao mesmo tempo que esta se confunde com o seu passado esquecido. Intercaladamente, e através de várias vozes narrativas, seguimos o destino dessa aldeia e em simultâneo o dos protagonistas daquela madrugada suja e daquela intriga política. Até que o final do dia e o raio verde venham pôr em ordem o caos aparente.

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   Sou suspeita para dizer seja o que for sobre este livro, simplesmente porque gosto bastante da forma de escrever do Miguel Sousa Tavares e, para mim, todos os seus livros são bons. Este não é excepção e oferece-nos um retarato de um Portugal dos últimos 30 anos que, apesar da distância temporal, nos parece muitas vezes tão actual. 

 

P.S-Depois de MST, voltamos a Ken Follett.

Portugal: ontem, hoje e amanhã #2

«Assim se finara um regime político, um sonho ou demência, toneladas e toneladas de granito arrancadas às entranhas da terra para construir um país em tudo uniforme e ordenado, em tudo planeado e mandado, excepto na impensável premonição de que o povo fugiria das aldeias e dos campos, viria povoar os subúrbios das grandes cidades, encostado a um mar que não compreendia, fechado em torres de cimento com todos os outros desterrados de um Portugal vazado. Um Portugal de aldeias mortas, de comerciantes falidos, de agricultores sentados à berma das estradas construídas com os dinheiros da Europa, vendo passar os grandes camiões TIR que traziam de Espanha e dessa Europa as frutas e os legumes criados em estufas maiores do que quaisquer hortas deles, em direcção aos centros comerciais onde, em breve, eles próprios aprenderiam o novo e insípido sabor dos melões e das cebolas, dos reinventados "frangos do campo" ou dos porcos sem gordura nem pecado, embalados em vácuo. E onde se resignavam a passear aos domingos, com filhos e noras e netos, tentando não se perder no meio dessa turba deslizante, entre montras e restaurantes e néons, num dédalo baptizado com nomes de avenidas e ruas, nomes de países ou heróis da Pátria, como se assim os velhos cuja aldeia agora era um centro comercial dos subúrbios não dessem pela diferença ou até, dando por ela, a apreciassem. Ou tudo se tivesse tornado tão longínquo que já não fazia diferença.»

"Madrugada suja", Miguel Sousa Tavares

Portugal: ontem, hoje e amanhã

«Fora a época dourada dos grandes dinheiros europeus, em que bastava apresentar um projecto e Bruxelas financiava. Faltava uma piscina municipal no concelho? Bruxelas financiava. Um centro de dia para a terceira idade? Bruxelas financiava. Um centro de saúde com médico e enfermeira disponíveis 24horas por dia e para atender não mais do que uma dúzia de doentes ou supostos doentes ao longo de um mês de prontidão? Bruxelas financiava. Aquecimento em todas as salas de aula de todas as escolas, pavilhão gimnodesportivo, criação de novas disciplinas escolares como a "área de projecto", onde os alunos gastavam um ano a fazer trabalhos sobre "as novas culinárias étnicas"? Bruxelas financiava. Uma auto-estrada ao pé de casa para "aproximar o litoral do interior"? Bruxelas financiava. E Bruxelas financiava também submarinos alemães de última geração, destinados a combater as fragatas soviéticas no Atlântico Norte e tornados inutéis pela queda do Muro de Berlim, gatafunhos supostamente paleolíticos descobertos numas rochas de uma aldeia do Douro, aviões F-16 para inexistentes combates aéreos, plantações de frutos tropicais, cursos de formação profissional de cinema, bordados de linho e criação de mirtilos em estufa, abate de barcos de pesca ou inquéritos de opinião sobre as vantagens da democracia. Bruxelas financiava tudo. Os governos projectavam, construiam, mostravam, ganhavam eleições. A banca intermediava, comissionava, cobrava, prosperava. O PIB crescia, os imigrantes afluíam e não havia credores à vista: só os parvos desconfiavam de tanto "desenvolvimento".»

"Madrugada suja", Miguel Sousa Tavares

Amor

  

«Se hoje, a alguma mulher - ou homem, vá - fosse proposto um amor assim, feito de um amontoado de dias sempre iguais, de hábitos, rituais, incompreensíveis manias estabelecidas, feito de tantos e tantos silêncios, de olhares mudos, mãos que às vezes se tocam disfarçadamente sobre a mesa quando ninguém mais estava a ver, feito de tantos e tantos trabalhos esforçados, canseiras, cansaços, desilusões e embaraços, quem, que mulher, que homem, chamaria a isso amor? Quem de n´so, hoje, quereria viver um romance assim, fechados numa aldeia fechada para o mundo, entre ovelhas, porcos, galinhas, Invernos gélidos e Verões de um calor impiedoso, toda uma vida sem tréguas nem disfarce, nem sequer um aparelho de televisão que trouxesse a essa vida uma dose miníma de ilusão e mentira? Quem de nós conseguiria amar sem ilusão, amar sem televisão?

   Mas eles amaram-se. Assim mesmo, sem saída nem regresso. Sem nunca partir, para nunca terem de regressar. Eu sei que parece absurdo, que é inexplicável: mas foram felizes. Tão felizes que me dói ainda pensar que ela morreu e, com ela, morreu esse amor que ambos viveram como ninguém mais. Depois deles não conheci ninguém mais que se amasse assim, ninguém mais qye tivesse cinseguido tornar tão simples o que sabemos ser tão complicado. Ah se eu soubesse o segredo deles, o da minha avó Filomena e do meu avo Tomaz, também eu poderia ter sido feliz! Mas também sei que vivemos apenas para o que nos acontece, não o que sonhámos. Somos resultado das circunstâncias: onde estamos, quando estamos, com quem estamos. E, hoje, temos demasiadas circunstâncias para que tudo se torne simples ou evidente por si mesmo. Muitas vezes podemos escolher e a escolha é-nos quase sempre fatal.

   Talvez eles não tenham podido escolher. Talvez as suas circunstâncias fossem aquelas e apenas aquelas e não houvesse mais escolha. Talvez. Mas, mesmo assim, é preciso saber reconhecê-las e vivê-las. É preciso saber reconhecer a possibilidade de ser feliz quando ela surge: esse foi o seu mérito e por isso foram tão felizes.»

"Madrugada Suja", Miguel Sousa Tavares

deveria ter sido escrito há uns meses atrás

Mas neste tempo frio e chuvoso faz ainda mais sentido:

 

"Em Setembro virão as marés vivas e depois o Outono começará a despir as árvores, antes que um céu plúmbeo se abata sobre nós e uma chuva sem remorsos varra da nossa pele os últimos vestígios de sal. A partir dái, ficamos à espera, outra vez. Pelos céus azuis, pelos peixes prateados, pela limpidez da água, pelos risos das crianças. Não quero que desesperes na espera: haverá sempre Verão, sempre, para além de nós mesmos, e por mais demorado que seja o regresso."

Miguel Sousa Tavares, in Não te deixarei morrer David Crocket

Grãos de areia

"Na verdade, o deserto não existe: se tudo à sua volta deixa de existir e de ter sentido, só resta o nada. E o nada é o nada: conforme se olha, é a ausência de tudo, ou, pelo contrário, o absoluto. Não há cidades, não há mar, não há rios, não há sequer árvores ou animais. Não há música, nem ruído, nem som algum, excepto o do vento de areia quando se vai levantando aos poucos - e esse é assustador."

 

"Tudo o que se diz de desnecessário é estúpido, é um sinal destes tempos estúpidos em que falamos mais do que entendemos. No deserto, não há muito a dizer: o olhar cega e impõe o silêncio."

 

"Aprendi que é preciso dar tempo aos outros para olharem."

 

"Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expôem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia das suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, "leves", disponíveis, sensíveis e interessantes. E por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam nem um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão."

Miguel Sousa Tavares, «No teu deserto»