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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Pai

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 Hoje, ao festejarmos o dia do pai na instituição pude ver os sorrisos rasgados e os olhares a brilhar das nossas crianças que receberam os seus papás nas salinhas. Pude ver que, independentemente de serem modelos parentais ou não, o afeto está lá e a alegria que a presença do pai ali, na escolinha deles, causou naquelas crianças é daquelas coisas que sabemos que ficam para sempre. 

Eu não me recordo de festejar o dia do pai na escola. Mas recordo-me de preparar as prendinhas que lhe dava. A da escola e a que fazia em casa. Na verdade, o meu pai ainda guarda todas essas prendinhas, a maioria desenhos sem arte nenhuma (sempre fui uma nódoa a desenhar!), prendinhas sem valor monetário mas que para mim eram o maior dos presentes, que eu fazia às escondidas com não sei quantos dias de antecedência e que colocava no lugar do meu pai à mesa de jantar para quando ele chegasse do trabalho  

Esta é apenas uma das milhentas memórias que tenho do meu crescimento com o meu pai. Muito se fala daquela ligação especial entre os pais e as filhas... provavelmente é uma realidade.  Eu sou menina do papá. Orgulhosamente. Não sei se o meu pai alguma vez desejou que eu tivesse saído rapaz em vez de princesinha, mas sei que sempre fui muito feliz com o meu pai. Até hoje. E espero eu por muitos e muitos anos. 

O meu pai não é especial, não é o melhor pai do mundo (apesar de isso estar escrito nuns quantos desenhos da infância) e não é a melhor pessoa do universo. Na verdade, o meu pai tem um feitio que me tira do sério, mas nisso, como em muitas outras coisas, puxei ao pai! Tirando isso, é o meu pai e é o melhor que eu podia a ter. É o meu modelo, cheio de imperfeições como toda a gente de carne e osso e aquela pessoa que eu admiro sem ser preciso dizê-lo. É o meu exemplo de garra e de determinação profissional, é aquela pessoa que eu vou querer agradar até ao fim dos nossos dias e que eu sei que me irá apoiar seja qual for o passo seguinte. 

Eu sou a menina do meu papá. Sou a menina que eu sei que ele admira sem ser preciso dizê-lo, sou aquela que ele vai querer proteger até ao fim dos nossos dias. Não sou a melhor filha do mundo. O meu pai não é o meu melhor amigo. O meu pai é o meu pai. Para sempre. Com toda a certeza. E de quantas coisas podemos ter assim tanta certeza nesta vida? Só isto, só isto tudo, chega para ser...tudo! 

A desilusão num olhar

   Quando se convive com crianças, convive-se também com a família dessas crianças. E nessas famílias há de tudo um pouco. Desde as chamadas "famílias tradicionais", às não tão tradicionais, mas cada vez mais comuns, isto é, famílias de pais separados. E aqui temos separações mais ou menos simples, mais ou menos amigáveis.

   A C. tem 7 anos. Filha de pais separados. O pai abandonou-a e à sua mãe à uns 6 anos na Holanda. Mãe e filha regressaram para Portugal. O pai por lá ficou, desaparecido durante uns anos e tentando aproximar-se da filha uns anos mais tarde, sendo mais os períodos de ausência do que de presença.

   A C., que tem apenas 7 anos e a inocência de quem pouco entende do muito que já viveu, disse-me: "Hoje é o dia mais feliz da minha vida. O meu pai está em Portugal e vem aqui buscar-me pela primeira vez na vida. Vem às seis e meia. Mal posso esperar". Os olhos brilhavam tanto como o coração e o sorriso. As perguntas eram constantes, mas sempre a mesma "Que horas são?". Era notória alegria daquela criança que tantas vezes se agarrou a mim simplesmente para ali estar, que todos os dias me diz "Posso sentar-me ao seu lado?", que tantas vezes assiste às brincadeiras em vez de participar nelas. Hoje era uma C. exctida, alegre, feliz. Completa. As seis e meia chegaram...e passaram. A ânsia dela aumentava. Até que chegou a hora de ir embora. E a hora da desilusão. Vi-a correr pelo corredor fora com um sorriso rasgado. E o meu coração apertado, apertado. Num segundo o mundo dela desabou. Era a mãe que estava à sua espera. A companheira de todos os dias, de sempre. A pergunta impôs-se: "O pai?". E o olhar da mãe, um olhar habitué nestas situações, o olhar de quem já tudo (ou melhor, nada!)  espera do pai da sua filha. E o olhar da C. a dirigir-se para o chão, juntamente com o sorriso, a alegria, toda a felicidade e mais um pedacinho da sua infância. Não chorou. Mas os olhos estavam carregados de lágrimas. E senti que todo o meu auto-controlo foi para ali chamado. O meu coração desfez-se ao ver aquela criança gerir (mais) uma desilusão com uma figura fundamental: o seu próprio pai. A mãe exigiu uma explicação telefónica e exaltada ao dito senhor. Acusou-o de ser "o mesmo de sempre", de "não ser pai", de "magoar constantemente a filha". E a filha assistiu a tudo isso, habituada à ausência do pai e aos pedidos de explicações exaltados da mãe.

   E eu pergunto-me: que pai é este? Qual é o pai que abandona uma filha? Qual é o pai que destrói assim os sonhos de uma criança, despedaça assim um sorriso e um coração em 1001 bocadinhos impossíveis de voltar a unir? Ninguém merece aquele olhar, aquela tristeza, aquela desilusão. Tudo isto aos 7 anos de idade. Uma criança! Com a força de uma leoa.

   Partiu-me o coração. Não foi pena da C. Foi revolta, indignação, incompreensão. Vergonha, por existirem seres da estirpe daquele senhor, que não é pai. De certeza que não o é. Ser pai e ser tudo em tudo, a qualquer altura, em qualquer lugar, independentemente das diastâncias e das circunstâncias da vida. Ser pai é encher olhares de sorrisos, não de lágrimas.

Pai(s)

   Os nossos pais saão os nossos modelos para muitos dos nossos passos. É inevitável. São eles que nos abrem os primeiros caminhos e nos mostram as primeiras imagens do mundo. Umas vezes melhor, outras pior, guiam-nos, dão-nos a mão, estão lá. São pais e isso confere-lhes o direito e a obrigação de olharem por nós para sempre, ainda que algumas vezes o façam de forma exagerada e nos deixem os nervos em franja.

   Hoje é dia do(s) Pai(s) (o dia da(s) Mãe(s) chegará, assim como as palavras para e sobre ela(s)). Não vou entrar no meu habitual discurso acerca dos dias disto e daquilo, porque começa a cansar, eu sei. Mas, ainda que não concorde com estes dias, hojé é dia do(s) pai(s) e, para aqueles que tendem a esquecer-se da importância do pai e da figura do pai, vamos, pelo menos hoje, admirá-lo e acarinhá-lo, mostrando-lhe que, ainda que as palavras muitas vezes faltem e as demostrações de afecto sejam parcas, ele é importante para nós, demasiado importante para prescindirmos da sua presença na nossa vida. Da minha parte estes dias não são necessários. Sou fã incondicional e número 1 do meu Pai. Admiro a sua personalidade, a sua inteligência, a sua determinação, a sua ambição e congratulo-o por tudo o que conseguiu na vida, com a luta e empenho que só os verdadeiros vencedores possuem. Olho para ele e desejo, um dia, chegar onde ele chegou, saber o que ele sabe, ser o que ele é, ter 49 anos e gostar do que ele gosta, fazer o que ele faz, ir onde ele vai, ter a imagem que ele tem. Olho para mim agora e vejo um reflexo do que ele é. "Ela é tão parecida com o pai" já faz parte da minha vida. Física e psicologicamente reflexos, com diferenças nos pontos cruciais. Nada me poderia orgulhar mais. Nada me poderia encher mais de esperança e certeza de que estou no bom caminho, que, se ele conseguiu, eu, com a mesma coragem e determinação que nos corre no sangue, também vou conseguir.

   Ele é o meu Pai. O meu Baldi. O meu Chico. O meu companheiro para a vida. Aquele que tenho a certeza que nunca me abandonará. Ainda que não concorde, não perceba, barafuste, discuta (suavemente...com ele sempre foi suavemente), aponte o dedo, amue...é o meu pai. E de um pai como o meu, do nosso pai, gosta-se sempre e para sempre.