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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Portugal: ontem, hoje e amanhã #2

«Assim se finara um regime político, um sonho ou demência, toneladas e toneladas de granito arrancadas às entranhas da terra para construir um país em tudo uniforme e ordenado, em tudo planeado e mandado, excepto na impensável premonição de que o povo fugiria das aldeias e dos campos, viria povoar os subúrbios das grandes cidades, encostado a um mar que não compreendia, fechado em torres de cimento com todos os outros desterrados de um Portugal vazado. Um Portugal de aldeias mortas, de comerciantes falidos, de agricultores sentados à berma das estradas construídas com os dinheiros da Europa, vendo passar os grandes camiões TIR que traziam de Espanha e dessa Europa as frutas e os legumes criados em estufas maiores do que quaisquer hortas deles, em direcção aos centros comerciais onde, em breve, eles próprios aprenderiam o novo e insípido sabor dos melões e das cebolas, dos reinventados "frangos do campo" ou dos porcos sem gordura nem pecado, embalados em vácuo. E onde se resignavam a passear aos domingos, com filhos e noras e netos, tentando não se perder no meio dessa turba deslizante, entre montras e restaurantes e néons, num dédalo baptizado com nomes de avenidas e ruas, nomes de países ou heróis da Pátria, como se assim os velhos cuja aldeia agora era um centro comercial dos subúrbios não dessem pela diferença ou até, dando por ela, a apreciassem. Ou tudo se tivesse tornado tão longínquo que já não fazia diferença.»

"Madrugada suja", Miguel Sousa Tavares

Portugal: ontem, hoje e amanhã

«Fora a época dourada dos grandes dinheiros europeus, em que bastava apresentar um projecto e Bruxelas financiava. Faltava uma piscina municipal no concelho? Bruxelas financiava. Um centro de dia para a terceira idade? Bruxelas financiava. Um centro de saúde com médico e enfermeira disponíveis 24horas por dia e para atender não mais do que uma dúzia de doentes ou supostos doentes ao longo de um mês de prontidão? Bruxelas financiava. Aquecimento em todas as salas de aula de todas as escolas, pavilhão gimnodesportivo, criação de novas disciplinas escolares como a "área de projecto", onde os alunos gastavam um ano a fazer trabalhos sobre "as novas culinárias étnicas"? Bruxelas financiava. Uma auto-estrada ao pé de casa para "aproximar o litoral do interior"? Bruxelas financiava. E Bruxelas financiava também submarinos alemães de última geração, destinados a combater as fragatas soviéticas no Atlântico Norte e tornados inutéis pela queda do Muro de Berlim, gatafunhos supostamente paleolíticos descobertos numas rochas de uma aldeia do Douro, aviões F-16 para inexistentes combates aéreos, plantações de frutos tropicais, cursos de formação profissional de cinema, bordados de linho e criação de mirtilos em estufa, abate de barcos de pesca ou inquéritos de opinião sobre as vantagens da democracia. Bruxelas financiava tudo. Os governos projectavam, construiam, mostravam, ganhavam eleições. A banca intermediava, comissionava, cobrava, prosperava. O PIB crescia, os imigrantes afluíam e não havia credores à vista: só os parvos desconfiavam de tanto "desenvolvimento".»

"Madrugada suja", Miguel Sousa Tavares

Prazo de validade

   Não gosto desesperadamente de flores. Mas gosto de receber uma flor. Não um ramo, uma flor. Gosto de a colocar numa jarra e vê-la ali todos os dias. Mas há uma coisa que me entristece sempre...saber que a cada dia que passa ela cresce para a morte e que mais dia menos dia vai acabar no caixote do lixo.

   Hoje foi o dia do meu girassol deixar de dar cor ao meu quarto. Como é possível deitar ao lixo uma prenda que alguém nos ofereceu com tanto carinho?

   Sempre me custou desfazer-me das coisas, especialmente aquelas que chegaram a mim pelas mãos de alguém. Sou a típica caixinha de recordações, com direito a sentimentos nostálgicos e tudo o mais. Guardo coisas do antigamente, coisas que me marcaram e que marcaram a minha história pessoal. Gosto de recordar. De não apagar o passado. Deve ser por isso que encerro em mim este fascínio pela fotografia. São imagens de momentos vividos que merecem não ser esquecidos, porque não registá-los e guardá-los, para voltarmos a eles sempre que quisermos ou precisarmos? Não nego o passado. Mas não vivo presa a ele. Aprendo com ele. Processo-o e tiro a lição. Vivo para as perspectivas, mas não esqueço a importância dos momentos de retrospectiva. 

   Tudo na vida tem um prazo de validade, é certo. Até aquilo que temos de melhor, as recordações, podem escapar-nos se algum inimigo da memória nos ataca. Será errado querer as coisas perto de nós o máximo de tempo possível? Palavras, gestos, momentos, pessoas, objectos, sabores, cheiros...sabe bem guardá-los. Não importa onde. Basta guardá-los.

   E pensar que tudo isto começou com uma flor que murchou ao fim de 3 semanas de cor e alegria...para uma flor, foi um excelente prazo de validade. Acontece. Com as coisas verdadeiramente importantes.

Música(s) no coração

 

   Uma das coisas que mais gosto de fazer é deita-me no escuro do quarto, headphones nos ouvidos, play no mp3 e deixar os pensamentos voarem e dançarem ao som de cada música. É interessante constatar que cada música nos leva para um canto diferente da nossa memória, uns mais recentes que outros, uns mais agradáveis de visitar, outros nem tanto. Para mim, que não vivo presa ao passado e gosto de guardar o melhor de cada parte da minha vida, recordar é, sem dúvida, viver. E é a recordar que viajo ao passado sem lá ficar, apenas planando, visualizando, aprendendo.
   Há músicas que nos marcam eternamente, tal como as pessoas e os momentos. Aliás, cada episódio da nossa vida deveria ter uma banda sonora associada, porque é ao som da música que revivo a minha infância, a minha adolescência, o meu crescimento, a minha transformação. Cada música particular conduz-me a uma etapa específica, a uma pessoa, a uma experiência. Há os amigos de sempre e os que pareciam ser para sempre e fugiram depressa demais deixando um vazio esse sim eterno; há as paixonetas da adolescência e depois as paixões e depois aquela paixão que parecia ser tudo e acaba em nada, sem percebermos o como e o porquê; há o amor descoberto num olhar e que me preenche como nunca antes; há viagens, passeios e festas; há alegrias, tristezas, conquistas, derrotas, desilusões, sonhos realizados e outros tantos desfeitos; há sorrisos e lágrimas; há bom e mau; há vida, porque a vida é assim mesmo, uma música sempre inacabada e incompleta, mas sempre mais perfeita a cada nova nota acrescentada, que é como quem diz, a cada passo que damos.
  
Silêncio. Apaguem as luzes. Vou ouvir as músicas do meu coração.

 

Olhar para trás

   "A vida ensinou-me a não olhar para trás. Mas não por medo, ou por vontade, até porque o tempo, que dizem que tudo apaga, só serve para nos roubar as horas e gravar na memória os melhores e os piores momentos. E ficamos presos lá dentro, como peixes num aquário, enquanto a vida corre lá fora, e os outros respiram e se movem em liberdade, sem sequer reparar que estamos ali, fechados em nós mesmos, presos numa bola de vidro transparente que nos mostra o mundo onde não conseguimos viver. E, como o presente não passa de uma prisão dura e pesada, já basta o esforço de a aguentar, por isso olhar o passado transforma-se num exercício estéril e inútil que só rouba mais tempo e que não serve para nada.

(...)

   A vida ensinou-me a aceitar em vez de querer, a esquecer em vez de julgar, a não guardar rancor e a dobrar a tristeza, sem nunca deixar de amar e proteger aqueles que já fizeram parte dela."

 

in "Nazarenas e Matrioskas", M.R.P.