Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Os meus pecados

« (...) Levantei-me devagar. Aproximei-me do corredor, baixei o joelho, fingi que me benzi. Caminhei na direcção do altar, lembrava-me das explicações da Irmã Lúcia na catequese. Tinha 8 anos, andava na terceira classe e não sabia ao certo quais eram os meus pecados.»

José Luís Peixoto, "Abraço"

 

   Nos meus idos anos de menina bonita e bem comportadinha fiz todo o percurso "catequesial" que uma criança/adolescente pode fazer. Desde o baptismo, à primeira e segunda comunhão (a melhor parte, dado os vestidinhos de princesa), passando pelo crisma e todas as festividades intermédias. Sendo verdadeiramente sincera, nunca gostei muito daquilo. Não tanto pelo que todos aqueles rituais significavam (mas também), mas principalmente porque nunca me identifiquei muito com o meu grupo de catequese, que foi praticamente o mesmo durante aquela carrada de anos. Por incrível que pareça e pela única vez em toda a minha vida, eu era a "mais velha do grupo" (como entrei para a escola com 5 anos, fui para a catequese apenas quando fiz os 6 anos e por isso estava na segunda classe enquanto os outros ainda estavam todos a aprender o  a-e-i-o-u) e achava sempre que eram todos um bocadinho mais infantis que eu (manias de menina mais velha, é o que é). Ainda assim, participava em todas as actividades, passeios e "retiros", que implicavam sempre fins-de-semana longe dos pais com direito a muita estupidez de criança e noites sem dormir e a dada altura achei que a melhor forma de estar semanalmente na missa ao Domingo de manhã era integrando o coro, o que fiz durante 2 ou 3 anos, embora não tenha voz nem para chamar um gato. Certo é que assim que me vi crismada resolvi arrumar o assunto catequese/religião e disse um sincero e satisfeito adeus àquela malta, com a qual não mantive qualquer contacto, tal era a ligação que (nunca) estabeleci com eles.

  Ora no meio de tanta festividade "catequesial" havia o dia em que tinhamos de ajoelhar e rezar, que é como quem diz, o dia em que tinhamos de confessar os nossos pecados e pedir a remissão dos mesmos com uma lista mais ou menos longa de orações que eu nunca rezei. Tal como tudo o resto, também não gostava destas tardes, nas quais tinhamos de ficar em silêncio sentados na igreja enquanto esperavamos a nossa vez e viamos os colegas nas suas confissões enquanto ouviamos os sussurros dos padres e tentavamos adivinhar o que diriam. Até que chegava a nossa vez. Nunca percebi porque é que o padre estava sentado e nós tinhamos de ficar ajoelhados ainda antes de se saber se erámos exímios pecadores ou mentirosos. E eu lá ia ter com o Sr. Padre, muito contente quando me calhava o padre velhinho com voz rouca e não tanto quando era com o Padre Martins, o "chefe" da igreja e ainda para mais amigo da minha família. E, uma vez ajoelhada, a coisa passava-se muito rapidamente já que eu nunca tinha nada para lhes dizer. Primeiro porque não sabia muito bem o que entrava na categoria de pecado e o que era uma asneira saudável, segundo porque nunca achei que alguma vez tivesse feito algo que merecesse o rótulo de pecado (nessa altura ainda não devorava bolachas maria) e terceiro e principal ponto, porque nunca fui pessoa (criança, adolescente, jovem ou adulta) de me abrir ou desabafar ou muito menos confessar com alguém que, mesmo sendo um mensageiro do Senhor, não conhecia de nenhum lado. De maneira que nada tinha para dizer, o Sr. Padre muito menos para me recomendar e lá regressava eu ao meu lugar com uma encomenda de avé-marias e pais nossos que tinha de rezar de joelhos (os joelhos, sempre os joelhos) mas que nunca cumpria (dificilmente me terão alguma vez visto rezar numa missa).

   Porquê isto agora? Porque li o texto do JLP e as palavras dele fizeram todo o sentido para mim. É que eu nunca soube ao certo quais eram os meus pecados...já os meus erros fui reconhecendo ao longo da vida mas sempre achei que não era ajoelhando que os poderia resolver/remediar.