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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Maio

Nenhuma casa sobrevive sem respirar e, enquanto finge, não respira. O Inverno e a modernidade são boas desculpas para impedir a respiração das casas. Em Maio deixa, porém, de haver pretexto para fingir. As casas fazem-se respirar abrindo janelas e postigos, baixando e subindo persianas ou entreabrindo portadas e cortinas, compondo e forçando correntes de ar, expondo e não ao sol.»

Pedro Guilherme - Moreira, "Livro sem Ninguém"

«Livro Sem Ninguém», Pedro Guilherme-Moreira

 

Na rua do arco-celeste há sete casas, cada uma de sua cor; e também um café, uma horta, um jardim, uma florista, uma sucata, um infantário e uma escola. Mas, embora lá vivam pessoas – que frequentam o café, trabalham na horta, lêem no jardim, compram flores para oferecer a quem amam, se desembaraçam dos seus podres ou jogam à bola no recreio –, esta história é contada apenas pelas coisas que lhes pertencem à medida que vão mudando de lugar, e por isso se diz que o livro é sem ninguém. E, ainda assim, durante este ano extraordinário, acontece de tudo na rua: há quem se apaixone e quem se separe, quem nasça, quem morra, quem mate e até quem, depois do trauma, consiga uma vida nova. Mas, como em todas as ruas, havemos de encontrar nesta preconceitos, dúvidas, alegrias, segredos e desgostos. Enquanto isso, o tempo vai passando sem darmos por ele, mas a montra da florista e o que se colhe ou semeia na horta nunca nos deixam perder do mês em que estamos. Num romance profundamente original, a um tempo cru e delicado, poético e realista, Pedro Guilherme-Moreira usa o microcosmos da rua para desenhar o retrato da sociedade contemporânea e abordar temas tão polémicos como a xenofobia, a violência doméstica, a repressão sexual ou o envelhecimento. E – miraculosamente – sem precisar de ninguém.

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   Estava muito curiosa em relação a este livro. Li "A manhã do mundo" há algum tempo e adorei e, por isso, assim que soube que Pedro Guilherme-Moreira tinha novo livro decidi automaticamente que tinha de o ler rapidamente. Mais curiosa ainda fiquei quando descobri que este livro era um livro sem ninguém, sem personagens humanas ou de carne e osso, mas com coisas, muitas e variadíssimas coisas que são as personagens principais deste livro. E essas coisas contam tanta história como as pessoas o fariam. O que não deixa de ser curioso; perceber que para se contar uma história (ou várias) não se precisa de ninguém, não quando se tem uma imensa imaginação e uma infindável capacidade de nos conduzir por uma rua de 7 casas, uma florista, um café e uma horta de mãos dadas com violinos, sapatos, casacos, carros, bicicletas, flores ou os mais variados legumes. Porque neste livro sem gente há tanta vida nas coisas das gentes que lá não estão, que conseguimos, mais do que nunca, ver vida de gente lá.

    Gostei, Pedro Guilherme-Moreira. Ainda assim, este livro sem ninguém não supera, para mim, aquela manhã do mundo, tão cheia de gentes e coisas...que venha o próximo!

Sobre os balanços...


Sobre os balanços. Já me viram bem a andar? Tenho quase dois metros e cento e vinte quilos - tinha cem quando era atleta, no voleibol (que eu amo irracionalmente) diziam-me que tinha perdil de jogador de râguebi, eu retorquia que os jogadores de râguebi também voavam, e foi assim que danifiquei pisos de pavilhões, excepto o de Oliveira do Douro, que era de cimento. Mas já me viram bem a andar? Eu já balanço tanto, que na altura de fazer balanços tento é ficar quieto. E a minha quietude diz-me que o ano que passou me trouxe, acima de tudo, o teatro. O teatro da fome e o teatro da escrita. Acabei o ano com duas pessoas brilhantes como íris, e tenho no corpo dezenas de sorrisos bonitos em corpos pardos que defendi enquanto advogado. Quase todos os pobres têm televisão por cabo. Alguns têm sport tv e carro. Muitos deles têm cozinhas onde não pousa uma mosca, porque serve para receber as pessoas, e a comida faz-se num pátio ou numa marquise. Estes habituaram-se a viver com pouco e estavam já musculados quando a crise chegou. Já os que tinham mais e perderam quase tudo andam aflitos e sem treino de pobreza. A miséria, essa, já lá estava e ainda aqui está. As festas foram boas para anestesiar, mas, verdade seja dita: os pobres musculados não foram ensinados a sorrir, e é tão difícil evadirmo-nos com eles, mesmo com sport tv, que eu gosto de levantar a névoa dos que perderam quase tudo menos o sorriso e algumas gargalhadas. Mesmo que seja difícil tirá-los da toca, porque o primeiro sinal da pobreza envergonhada é o desaparecimento do mundo. E, como eu balanço tanto a andar, a energia dispendida não me deixa espaço para queixas. Por isso esta história da vergonha e dos sorrisos não foi um balanço. Sou só eu quietinho. Quando nos cansamos tanto a viver, é fundamental parar muitas vezes, e a cada paragem uma gargalhada, e como o riso engana o mundo, o mundo acaba - instintivamente - a rir de volta. Há menos fome com menos balanços e mais gargalhadas. Como o palhaço que tinha uma placa pendurada ao pescoço que dizia "pf não me chamem primeiro-ministro". Ou o Calvin a dizer para o Hobbes: "A partir de hoje tenho um novo lema: "Que se foda!"; e pergunta o Hobbes: "E não é um lema um bocado forte?; e responde o Calvin: "Que se foda!"


Pedro Guilherme Moreira

roubado da sua página no Facebook

Quem não gosta, desliga-se

«O exercíco de não olhar para si próprio não resolve o anátema dos que estão fora de todas as redes sociais e sobrevivem - estar de fora é uma opção legítima. O que já não é legítimo é estar de fora e saber que todos são diferentes e achar que os que estão dentro são todos iguais, têm os mesmos vícios, os mesmos problemas, as mesmas carências e nada de bom. Se irrita a sucessão de praias e jantares e festas que se perdem, desliga-se. Como a televisão. Se indispõe a maldade, evitam-se os maldosos, como na vida. Se há verdadeiras bestas que, sendo espertos, não têm filtro social e insultam aqueles ou a memória daqueles que são exaltados ou não suportam as loas preguiçosas aos que morrem, aprenda-se as bestas, acolha-se as bestas no lugar que foi feito para elas serem livres. Se incomodam, desligue-se, como a televisão. Claro que o exercício do bloqueio ou a limpeza de caras é legítimo, mas tem o lado B: na vida não se limpam os incómodos. Pelo menos não com um clique. A rede social nasceu precisamente para retirar os egos do seu próprio centro, e quando os egos se centram em si perante milhares, milhões, expõem-se, são sindicados: uns vão aprendendo a fugir de si, outros viciam-se no número de polegares erguidos. Como na vida. A ilusão e a verdade não são líquidas. São sólidas e podem sublimar-se. E uma vez no ar respiram-se. Pode ser veneno. Pode não. »

Pedro Gulherme Moreira 2013

(roubado da sua página do facebook)

Da vida de cada dia...


Abrando aqui quase todos os dias, neste café, à espera de alguém que depois levo para casa e assim fica o dia dividido em dois, do lado de cá a separação e a solidão (a solidão boa, deus me livre da outra, que quando me tenta visitar eu espanco com palavras bonitas do norte) e o trabalho antes do lado de lá, o regresso aos meus, a reunião. Gosto de vir a este centro de lojas, gosto de passar pelas... pessoas e de vê-las passar por mim, gosto de me encostar aos vidros dos elevadores e de entender os corpos num esforço de adequação ao espaço e os olhares num esforço de adequação ao silêncio, chego e peço sempre um café comprido com adoçante e um copo de água e abro o portátil e arranco a música nos ouvidos e, quando não tenho tempo para trabalhar mais um bocadinho, escrevo coisas assim. Tenho andando com a literatura à cintura, como uma daquelas bolsinhas sempre fora de moda, tenho andando mais calado do que falante, mais com os dedos em suspenso sobre o teclado do que caindo sobre ele, tenho lido tanto, ouvido tanto, olhando tanto para as pessoas que passam para as cidades delas, para os momentos delas, tenho conhecido tanta gente sem livros e de rebarbadora e de cana de pesca e de chave de parafusos na mão a quem falo sempre de livros, elas perguntam o que é que eu faço e se eu digo que sou advogado sou consultado, se digo que sou escritor sou olhado de lado, uns sorriem, outros continuam como se eu não tivesse dito nada, e eu vou falando do que está dentro do livros e depois à noite aproximo-me da mancha do meu filho, que é o bastante para o reter, e penso que sempre que ele escreve, e é quase nunca, escreve melhor do que eu e então pergunto pela literatura que eu quero para ajudar a levantar aquelas rebarbadoras, aquelas canas de pesca, aquelas chaves de parafuso, porque eu sei que há livros para nada mas tenho a certeza de que há livros que são tudo e sei, hoje sei, cada vez mais sei, que tenho de comunicar a literatura para dentro daqueles olhos duros e daqueles corpos doridos, fazê-los parar e escrever no ar para eles, pegar nas frases que já estão feitas e os confortam e tirar-lhes um verbo, aplicar-lhes uma luz, um cheiro, um botão, um barulho que os faça acordar durante alguns segundos e depois voltar à função e levar na boca, para o café, para este café, umas horas mais tarde, a inquietação que eu lhes dei, como eu trago tudo deles para aqui, que nunca nenhum me provocou o tédio que me provocam as pessoas importantes todos os dias. Estamos perto, estamos perto, filho.

 Pedro Guilherme Moreira, 2013


(roubado da sua página no facebook)

Nas palavras dos outros

 

Hoje não há. Porque as palavras que procuro têm de ser tudo. Fundas, claras, leves, negras. Para lhe dizer que não há felicidade que não pese nem tristeza que não voe. E que não é pela beleza, nem pela bondade, nem pelo cheiro, nem pelos olhos. E que estou aqui perante a mesa com os veios com os olhos secos desde a ameaça da noite e na indefinição da madrugada. Que pareço frio mas me desfaço. Que ...
estou sem forma e porém de pedra. Os meus lábios grossos em carne viva. Selados. A garganta seca, húmida. Como um sorriso e um choro. Frio, fome, certeza, calor. Nunca serviria um abraço. O esmagamento do esterno. Mas os olhos. Que me olhem para o fundo dos olhos e se deixem olhar pelo lapso de tempo e silêncio que duas pessoas demoram a ser camadas uma da outra, a estar dentro e entre, queijo, fiambre, pão. Que não se convoque corpo, sexo, desejo, fome, sede, nada. Só a - ah, não vou dizer. Não vou dizer alma. Só a alma. Já ouvi a Silvia Pérez Cruz e o Caetano Veloso ascenderem assim, virgem santíssima, e ninguém se queixa: "jura que una paloma no es otra cosa mas que su alma". Então que não se convoque o corpo nem a alma mas um animal, uma espécie nova, como se outra carne nascesse dessa troca de olhares. Sim, quando duas pessoas se entendem para lá de qualquer ideia ou pulsão, quando chegam a ser endógenas uma à outra, inventam outra vida. É verdade que já vi fazer isso sem olhar. A palma de uma mão nas costas de outra. Houve, afinal? Se houve afinal palavras? Não. Não são palavras.
Pedro Guilherme-Moreira, 2012
(retirado da sua página do Facebook)