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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Porque há 70 anos, o holocausto foi uma realidade do homem para o homem

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 Mas para onde vamos, não sabemos. Conseguiremos talvez sobreviver às doenças e escapar às selecções, talvez também resistir ao trabalho e à fome que nos consomem: e depois? Aqui, momentaneamente afastados das blasfémias e das violências, podemos voltar a nós próprios e meditar, e é então que se torna claro que não teremos regresso. Viajámos até aqui nos vagões selados; vimos partir em direcção ao nada as nossas mulheres e as nossas crianças; reduzidos a escravos, marchamos mil vezes para trás e para diante, numa fadiga muda, já apagados nas almas antes da morte anónima. Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschtwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem.”

Primo Levi, "Se isto é um homem"

 

«Se isto é um homem», Primo Levi

 

Na noite de 13 de Dezembro de 1943, Primo Levi, um jovem químico membro da resistência, é detido pelas forças alemãs. Tendo confessado a sua ascendência judaica, é deportado para Auschwitz em Fevereiro do ano seguinte; aí permanecerá até finais de Janeiro de 1945, quando o campo é finalmente libertado. Da experiência no campo nasce o escritor que neste livro relata, sem nunca ceder à tentação do melodrama e mantendo-se sempre dentro dos limites da mais rigorosa objectividade, a vida no Lager e a luta pela sobrevivência num meio em que o homem já nada conta. Se Isto é um Homem tornou-se rapidamente um clássico da literatura italiana e é, sem qualquer dúvida, um dos livros mais importantes da vastíssima produção literária sobre as perseguições nazis aos judeus.

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   Provavelmente, um dos melhores livros que li até hoje, com descrições brutais, porque vividas na primeira pessoa, sobre o que se passava nos campos de concentração nazis. Absolutamente imperdível! 

Vós que viveis tranquilos

Nas vossas casas aquecidas,

Vós que encontrais regressando à noite

Comida quente e rostos amigos:

       Considerai se isto é um homem   

     Quem trabalha na lama    

    Quem não conhece a paz

       Quem luta por meio pão     

   Quem morre por um sim ou por um não.    

    Considerai se isto é uma mulher,     

   Sem cabelo e sem nome     

    Sem mais força para recordar

     Vazios os olhos e frio o regaço

    Como uma rã no Inverno.

Meditai que isto aconteceu:

Recomendo-vos estas palavras.

 Esculpi-as no vosso coração

 Estando em casa, andando pela rua,

Ao deitar-vos e ao levantar-vos;

Repeti-as aos vossos filhos.    

 Ou que desmorone a vossa casa,

     Que a doença vos entrave,    

 Que os vossos filhos vos virem a cara.

Se isto é um homem...#3 (e estas são palavras a que ninguém consegue ficar indiferente)

 

"Sabemos de onde vimos: as recordações do mundo externo povoam os nossos sonos e as nossas vigílias, apercebrmo-nos com espanto de que nada esquecemos, todas as memórias evocadas surgem diante de nós dolorosamente nítidas.

Mas, para onde, vamos, não sabemos. Conseguiremos talvez sobreviver às doenças e escapar às selecções, talvez também resistir ao trabalho e à fome que nos consomem: e depois? Aqui, momentaneamente afastados das blasfémias e das violências, podemos voltar a nós próprios e meditar, e é então que se torna claro que não teremos regresso. Viajámos até aqui nos vagões selados; vimos partir em direcção ao nada as nossas mulheres e as nossas crianças; reduzidos a escravos, marchamos mil vezes para trás e para diante, numa fadiga muda, já apagados nas almas antes da morte anónima. Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auscwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem." 

 

Se isto é um homem...#1

"Imagine-se agora um homem ao qual, juntamente com as pessoas amadas, tiram a casa, os hábitos, a roupa, enfim, tudo, literalmente tudo quanto possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à carência, esquecido da dignidade e do bom senso, pois acontece facilmente, a quem tudo perdeu, perder-se de si próprio; reduzido a tal ponto que outros poderão sem problemas de consciência decidir da sua vida ou da sua morte para além de qualquer sentido de afinidade humana; no caso mais optimista, na base de uma mera avaliação de utilidade. Compreender-se-á então o duplo significado da expressão «campo de extermínio», e será claro o que entendemos exprimir com esta frase: jazer no fundo."

«Se isto é um Homem», Primo Levi