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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Se só se vive uma vez, porque viver a correr?

   Não sei se é o mundo que está apressado, se é o tempo que passa depressa demais, se é a vida que se tornou mais efémera ou se sou apenas eu que vivo de forma demasiado acelerada e por isso mesmo, demasiado ansiosa. Certo é que mais do que nunca tenho a sensação de que desejamos demasiado a passagem do tempo para depois nos lamentarmos do tempo que já passou. Parece que vivemos sempre à espera de que aquele momento chegue, aquele dia, aquela hora...acordamos à segunda feira a desejar que a semana passe rápido e o fim de semana chegue; quando finalmente é fim de semana, são dois dias que quando nos apercebemos já passaram. Entramos no trabalho de manhã a desejar que a hora de sair chegue rapidamente; quando ela chega esquecemo-nos que é mais um dia que está a terminar. Passamos o Inverno a desejar que a Primavera chegue e o sol brilhe; quando damos por nós já o Verão vai a meio e já só pensamos em roupas e mantas quentinhas, ao ponto de dizermos coisas estúpidas como "já tenho saudades de ver um filme enrolada numa manta a beber um chá quentinho" quando não existe nada melhor que o tempo quente. Durante um ano sonhamos com as férias de verão, com os dias de descanso a tostar ao sol, sem preocupações ou tempo contado. A verdade é que as férias são 10 dias que passam a correr e o resto do ano são muitos dias para aguentar. Se sabemos que a determinada altura vai acontecer algo que queremos mesmo muito que aconteça, quase que pensamos que não nos importariamos de adormecer e acordar só nesse dia, deixando de viver todos os outros, que são tão importantes como aquele que tanto queremos.
   A verdade é que o tempo é um bem demasiado precioso para o querermos despachar. A vida atual está demasiado acelerada para nos permitir aproveitar os dias, os momentos, os acontecimentos e as pessoas como deve de ser. A regra atual é "nunca mais é..." ou "nunca mais chega...". Eu vivo completamente neste sistema, o que, quando consigo parar para refletir, me irrita e incomoda profundamente, pois gera um tremendo estado de ansiedade interior com a qual às vezes tenho alguma dificuldade em lidar e que não é nada saudável. Parece que estou sempre à espera do que vem a seguir e quando abro os olhos já tudo passou. Já era!
   O que será que nos falta para finalmente aprendermos que só se vive uma vez e que agora é tão importante como o que vem a seguir?

Home is where they understand you

 

   Não gosto de sair de casa. De fazer uma mala, colocar para lá pedaços do que são e partir. Não me entendam mal; é óbvio que gosto de ir de férias e adoro conhecer locais novos, mas o saber que vou deixar "o meu espaço" por um determinado número de dias deixa-me um tanto nostálgica e ali num misto de aborrecimento e tristeza. De maneiras que no momento de voltar a casa nunca sofro daquele síndrome de "oh não, não queria nada que isto terminasse". Volto a casa e volto sempre satisfeita, carregada de recordações.

  Não me perguntem a explicação para tal, afinal eu sempre me considerei uma "sem raízes" e para além disso ir de férias é uma espécie de vou ali e volto já, sem despedidas ou partidas definitivas. Certo é que a mim me desperta uma série de sentimentos e sensações pouco agradáveis, ao ponto de quase me fazer sentir que, afinal, não quero ir a lado nenhum.

   Talvez, por mais que isso seja difícil de admitir para o meu coração de gelo, eu tenha mais raízes do que admito. Talvez até eu seja mais "apegada" às coisas e às pessoas do que realmente julgo. E talvez, talvez, o meu lugar seja mesmo aqui. Afinal, por muito grande que seja a nossa mala é impossível lá transportar tudo aquilo que somos. Ou tudo aquilo que faz aquilo que somos.

   Já dizia o outro...Home is where they understand you...

Quem sai aos seus...

 

 

   Às vezes sinto que nós, psicólogos, estamos ali para fazer o que os pais não conseguem/não sabem/não querem fazer, o que nos coloca numa posição que, a meu ver, é bastante ingrata, porque parece rotular-nos assim como uma espécie de sabe tudo da boa educação, do bom viver ou da perfeição. Isto cria expectativas nas outras pessoas, como se o facto de termos determinada profissão tornasse absolutamente impossível e intolerável certos e determinados comportamentos em nós e nos que nos são próximos, afinal só passamos os "bons exemplos".

   Ora isto fez-me pensar até que ponto a profissão dos pais cria expectativas em relação ao comportamento e temperamento dos filhos. Assim alguns exemplos:

   É de esperar que o filho de uma educadora de infância seja uma criança exemplarmente educada e estimulada?

   É de esperar que o filho de um professor de matemática seja o vencedor das olimpíadas da matemática?

   É de esperar que o filho de um desportista seja tudo menos obeso?

   É de esperar que o filho de um médico seja um poço de saúde e vida saudável?

   É de esperar que o filho de um jurista ou advogado siga as regras à risca?

   É de esperar que o filho de um escritor adore ler?

   ...

   É de esperar que o filho de um psicólogo seja uma criança "modelo", em termos de disciplina, autocontrolo, emoções, educação e tudo aquilo que os outros pais nos pagam para transmitirmos aos seus filhos?

 

   Enquanto filha de pai engenheiro civil não sei se era suposto gostar de prédios e estradas, mas não gosto. Já das matemáticas, uma das principais disciplinas da área, nunca fugi e sempre consegui resultados positivamente bem longe do panorama nacional. E fica por aqui o que de engenharias corre no meu sangue.

   Enquanto mãe nada tenho a acrescentar, já que a experiência na área é nula. E embora a maternidade não faça parte dos meus planos, muitas vezes dou por mim a pensar que, pela minha profissão, muito boa gente poderá colocar a fasquia da educação de um potencial filho muito alta, não lhe dando margem para qualquer pequeno desvio. Aliás, tenho um exemplo na família. Um tio psicólogo que embora passe uma educação exemplar aos seus filhos, deixa um tanto a desejar no que a práticas educativas e parentais diz respeito. E o comentário que chega de quem assiste do lado de cá é sempre o mesmo e sempre proferido com a maior das admirações: "E o pai é psicólogo!"

 

   A questão é:

terão os nossos filhos de ser um reflexo das nossas profissões?