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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Os meus pecados

« (...) Levantei-me devagar. Aproximei-me do corredor, baixei o joelho, fingi que me benzi. Caminhei na direcção do altar, lembrava-me das explicações da Irmã Lúcia na catequese. Tinha 8 anos, andava na terceira classe e não sabia ao certo quais eram os meus pecados.»

José Luís Peixoto, "Abraço"

 

   Nos meus idos anos de menina bonita e bem comportadinha fiz todo o percurso "catequesial" que uma criança/adolescente pode fazer. Desde o baptismo, à primeira e segunda comunhão (a melhor parte, dado os vestidinhos de princesa), passando pelo crisma e todas as festividades intermédias. Sendo verdadeiramente sincera, nunca gostei muito daquilo. Não tanto pelo que todos aqueles rituais significavam (mas também), mas principalmente porque nunca me identifiquei muito com o meu grupo de catequese, que foi praticamente o mesmo durante aquela carrada de anos. Por incrível que pareça e pela única vez em toda a minha vida, eu era a "mais velha do grupo" (como entrei para a escola com 5 anos, fui para a catequese apenas quando fiz os 6 anos e por isso estava na segunda classe enquanto os outros ainda estavam todos a aprender o  a-e-i-o-u) e achava sempre que eram todos um bocadinho mais infantis que eu (manias de menina mais velha, é o que é). Ainda assim, participava em todas as actividades, passeios e "retiros", que implicavam sempre fins-de-semana longe dos pais com direito a muita estupidez de criança e noites sem dormir e a dada altura achei que a melhor forma de estar semanalmente na missa ao Domingo de manhã era integrando o coro, o que fiz durante 2 ou 3 anos, embora não tenha voz nem para chamar um gato. Certo é que assim que me vi crismada resolvi arrumar o assunto catequese/religião e disse um sincero e satisfeito adeus àquela malta, com a qual não mantive qualquer contacto, tal era a ligação que (nunca) estabeleci com eles.

  Ora no meio de tanta festividade "catequesial" havia o dia em que tinhamos de ajoelhar e rezar, que é como quem diz, o dia em que tinhamos de confessar os nossos pecados e pedir a remissão dos mesmos com uma lista mais ou menos longa de orações que eu nunca rezei. Tal como tudo o resto, também não gostava destas tardes, nas quais tinhamos de ficar em silêncio sentados na igreja enquanto esperavamos a nossa vez e viamos os colegas nas suas confissões enquanto ouviamos os sussurros dos padres e tentavamos adivinhar o que diriam. Até que chegava a nossa vez. Nunca percebi porque é que o padre estava sentado e nós tinhamos de ficar ajoelhados ainda antes de se saber se erámos exímios pecadores ou mentirosos. E eu lá ia ter com o Sr. Padre, muito contente quando me calhava o padre velhinho com voz rouca e não tanto quando era com o Padre Martins, o "chefe" da igreja e ainda para mais amigo da minha família. E, uma vez ajoelhada, a coisa passava-se muito rapidamente já que eu nunca tinha nada para lhes dizer. Primeiro porque não sabia muito bem o que entrava na categoria de pecado e o que era uma asneira saudável, segundo porque nunca achei que alguma vez tivesse feito algo que merecesse o rótulo de pecado (nessa altura ainda não devorava bolachas maria) e terceiro e principal ponto, porque nunca fui pessoa (criança, adolescente, jovem ou adulta) de me abrir ou desabafar ou muito menos confessar com alguém que, mesmo sendo um mensageiro do Senhor, não conhecia de nenhum lado. De maneira que nada tinha para dizer, o Sr. Padre muito menos para me recomendar e lá regressava eu ao meu lugar com uma encomenda de avé-marias e pais nossos que tinha de rezar de joelhos (os joelhos, sempre os joelhos) mas que nunca cumpria (dificilmente me terão alguma vez visto rezar numa missa).

   Porquê isto agora? Porque li o texto do JLP e as palavras dele fizeram todo o sentido para mim. É que eu nunca soube ao certo quais eram os meus pecados...já os meus erros fui reconhecendo ao longo da vida mas sempre achei que não era ajoelhando que os poderia resolver/remediar.

A psicologia e a fé de cada um

   Apesar de a instituição onde trabalho ser completamente católica-apostólica-românica e a maioria dos nossos idosos serem católicos, temos uma minoria que professa outras religiões.

  Esta semana, em visita domiciliária a uma utente e à sua filha, ambas testemunhas de Jeová, cruzei-me com dois dos seus "irmãos", que é a forma como se tratam as pessoas que têm aquela crença em comum. Não sei se foi propositado ou não, até porque desconhecia completamente as pessoas que lá estavam, mas assim que me sentei, enquanto aguardava que os "irmãos" terminassem a sua visita (parece que é algo muito comum nesta religião, o visitarem-se uns aos outros, especialmente em tempos de maior necessidade ou dificuldade, o que eu acho fantástico), fiquei com a sensação que o discurso daqueles dois senhores tentava pura e simplesmente "vender-me" a sua religião, já que cada simples frase era acompanhada de uma longa teoria acerca dos princípios da religião. A dada altura começaram mesmo a dirigir demasiado o olhar para mim. Claro que não faltaram as acusações à igreja catolica, que a dada altura se tornaram mesmo insultuosas, o que me pareceu completamente desnecessário e de lamentar. Provavelmente a minha postura refletiu essa minha sensação, já que um deles acabou por dizer "peço desculpa se a ofendi e não sei qual é a sua religião...". Não sei se terão percebido a mensagem com a minha resposta seca de "acima de tudo respeito todas as crenças", mas imediatamente ripostaram com um rude "vocês das psicologias não ligam nenhuma estas coisas da religião, são mais de outras áreas...".

   Meus senhores e minhas senhoras, nós, os das psicologias, ligamos e muito a essas coisas da religião, simplesmente porque a religião é um dos principais pilares da personalidade de muita gente, especialmente dos idosos. Eu valorizo, e muito, a fé e as crenças de cada um, já que é isso que explica, justifica, fundamenta, estrutura, muitos dos comportamentos, pensamentos e ideias das pessoas. A crença religiosa de cada idoso é uma das perguntas que fazemos logo nas nossas fichas de inscrição e no nosso diagnóstico mais "psicológico" exploramos a forma como cada um vive a religião e quais os hábitos que tem. Por isso, minhas gentes com pensamentos retrogados, a psicologia e qualquer trabalho psicológico é inseparável das questões religiosas. Eu preocupo-me em conhecê-las, expolorá-las e saber um pouco do fundamento teórico de casa religião dos nossos idosos. Mas acima de tudo, e psicologias à parte, eu respeito todas as crenças, e respeito foi aquilo que me pareceu faltar a estes dois "irmãos".

O que nos leva a Fátima?

   Sempre que lá vou coloco-me esta questão. Talvez porque nem eu sei o que me leva lá. É verdade que sempre que lá vou é por sugestão ou companhia de alguém, ou seja, não tomo a iniciativa de ir a Fátima. Nunca tomei, pelo menos. Mas também não digo que um dia não o farei. A verdade é que não sinto necessidade de lá ir, também não me sinto mal por lá. Talvez pela calma que lá se sente, pelo sentimento de união numa crença comum.

   Quando me passeio por Fátima gosto sobretudo de observar (basicamente o que gosto de fazer em todo o lado). A variedade e diversidade de gentes é absolutamente impressionante. O "mistério de Fátima" chega a todo o lado, a todos os cantos do mundo, a todas as etnias, raças, géneros e idades. Quase que o poderiamos considerar um fenómeno de massas, massas que por algum motivo acreditam numa história contada, como em tudo o que diz respeito à religião, ou simplesmente almas que precisam de acreditar em qualquer coisa, em algum momento da vida.

   De vez em quando vou a Fátima. Não me sinto nem melhor nem pior pessoa por isso. Mas sinto-me e para já isso basta-me. Será que vale a pena tentar compreender o resto?

 

Não consigo deixar de me chocar e revoltar com aquelas almas crentes que percorrem aquele percurso de joelhos ou mesmo de gatas. Não me conformo com uma igreja que continua a permitir tal e que, ainda por cima, construiu uma "estradinha" para tal. É nestas coisas que a religião sai a perder e muito.

 

 

Vem aí sarilho

 

 

«Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam».

  

 

 

   E o Excelentíssimo Sr. Cardeal meteu-se também num belo sarilho com esta pouco feliz escolha de palavras. E à primeira vista, duas observações parecem-me pertinentes: a) não admira que a Igreja Católica tenha cada vez menos fiéis seguidores (passa a redundância) e b) o Sr. Cardeal não faz a mais pequena ideia do que é o amor e do que podemos e não podemos fazer quando ele entra na nossa vida.