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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

O fio dos dias

  

   "E assim prosseguimos com as nossas vidas, cada um para seu lado. Por mais profunda e fatal que seja a perda, por mais importante que seja aquilo que a vida nos roubou - arrebatando-a das nossas mãos -, e ainda que nos tenhamos convertido em pessoas completamente diferentes, conservando apenas a mesma fina camada exterior de pele, apesar de tudo isso continuamos a viver as nossas vidas, assim, em silêncio, estendendo a mão para chegar ao fio dos dias que nos coube em sorte, para logo deixarmos irremediavelmente para trás. Repetindo, muitas vezes, de forma particularmente hábil, o trabalho de todos os dias, deixando na nossa esteira um sentimento de um incomensurável vazio."

(in «Sputnik, Meu Amor», Haruki Murakimi)

Uma conjunçãozinha

 

 

   "- Bem sei que não devia estar a ligar-te assim tão tarde. Lamento sinceramente. Para mais, a esta hora, quando ainda nem os galos começaram a cantar. A esta hora, quando a pobre lua, pendurada a leste num canto do céu, mais parece um rim em mau estado. Mas agora pensa também um bocadinho em mim, que tive de mergulhar na escuridão total para chegar até aqui agarrada a este cartão de telefone que me deram no dia do casamento da minha prima. Com uma fotografia do feliz casal de mãos dadas. Consegues imaginar até que ponto estas coisas me deprimem? Tem dó de mim! As meias que trago calçadas são desirmanadas. Uma tem um desenho do rato Mickey e a outra é de lã, toda lisa. O meu quarto está uma perfeita bagunça, não consigo encontrar nada. O melhor é não dizer isto muito alto, mas não imaginas o estado em que tenho as cuecas. Duvdido mesmo que até um desses tarados que coleccionam roupa interior quisesse ficar com elas. Se um maluco qualquer acabasse comigo, no estado em que eu estou, nunca mais descansaria em paz. Não te estou a pedir que tenhas pena de mim, mas seria simpático da tua parte se, aí desse lado, pudesses dizer-me qualquer coisa com pés e cabeça. Para além dessas tuas frouxas interjeições, dos ohs e hums. Que tal uma conjunçãozinha? Uma conjunção já seria bom. Um sim ou um mas, por exemplo.

   - Contudo.

   - Contudo. Tudo bem, já não é mau."

(in «Sputnik, Meu Amor», de Haruki Murakami)