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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Tempo

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   "Há tempo para tudo".

   Hoje, como nunca, esta frase parece a maior das mentiras que mentes optimistas e despreocupadas nos podem impingir. Se a vida passa a correr, se as exigências são tantas e demasiadas, se o dia não chega para tantas tarefas, se , se ,se... como é que nos querem fazer acreditar que há tempo para tudo quando vivemos diariamente com aquela sensação de que deixamos tanto por fazer?

   Na minha opinião, isto é muito simples: na vida, há realmente tempo para tudo!

   Façamos nós o que fizermos, pensemos o que pensarmos, um dia terá sempre 24h e 24h dá para muita coisa! Pode não dar para fazer tudo hoje, é um facto, mas muitas 24h juntas dão para tudo o que quisermos! E aqui é que está o segredo: querermos! Ou melhor, saber o que queremos, que passa muito por saber o que é realmente importante, o que é prioritário, o que é urgente, o que podemos deixar para amanhã, ou depois, ou depois, ou até mesmo o que podemos simplesmente deixar passar.

   Uma vida que é vivida em pleno e com gosto é e será sempre uma vida curta demais. O tempo em que fazemos aquilo que gostamos e nos realiza será sempre um tempo que passa a voar. As horas que passamos a cumprir tarefas com as quais não nos identificamos serão sempre insuficientes, não porque realmente o são, mas pelo significado negativo que atribuimos aquela tarefa. Mas o tempo que temos, seja o tempo de vida ou o tempo para cumprirmos tarefas é O NOSSO tempo e cabe-nos a nós e apenas a nós geri-lo da melhor forma possível, porque é um facto e a maioria poderá discordar, mas há realmente tempo para tudo. E nós vamos perceber isso quando aceitarmos que "agora, já, no imediato" não é o único tempo que existe e que importa.

E de repente...

Percebemos que já é Novembro, que os dias são pequeníssimos, que o frio voltou, que há muito cinzento à nossa volta, que a nossa agenda tem cada vez mais páginas para trás e menos para a frente e que o Natal está escandalosamente perto...
E de repente lembramo-nos que mais um ano está quase a passar e às vezes esta passagem tão rápida do tempo assusta...

Se só se vive uma vez, porque viver a correr?

   Não sei se é o mundo que está apressado, se é o tempo que passa depressa demais, se é a vida que se tornou mais efémera ou se sou apenas eu que vivo de forma demasiado acelerada e por isso mesmo, demasiado ansiosa. Certo é que mais do que nunca tenho a sensação de que desejamos demasiado a passagem do tempo para depois nos lamentarmos do tempo que já passou. Parece que vivemos sempre à espera de que aquele momento chegue, aquele dia, aquela hora...acordamos à segunda feira a desejar que a semana passe rápido e o fim de semana chegue; quando finalmente é fim de semana, são dois dias que quando nos apercebemos já passaram. Entramos no trabalho de manhã a desejar que a hora de sair chegue rapidamente; quando ela chega esquecemo-nos que é mais um dia que está a terminar. Passamos o Inverno a desejar que a Primavera chegue e o sol brilhe; quando damos por nós já o Verão vai a meio e já só pensamos em roupas e mantas quentinhas, ao ponto de dizermos coisas estúpidas como "já tenho saudades de ver um filme enrolada numa manta a beber um chá quentinho" quando não existe nada melhor que o tempo quente. Durante um ano sonhamos com as férias de verão, com os dias de descanso a tostar ao sol, sem preocupações ou tempo contado. A verdade é que as férias são 10 dias que passam a correr e o resto do ano são muitos dias para aguentar. Se sabemos que a determinada altura vai acontecer algo que queremos mesmo muito que aconteça, quase que pensamos que não nos importariamos de adormecer e acordar só nesse dia, deixando de viver todos os outros, que são tão importantes como aquele que tanto queremos.
   A verdade é que o tempo é um bem demasiado precioso para o querermos despachar. A vida atual está demasiado acelerada para nos permitir aproveitar os dias, os momentos, os acontecimentos e as pessoas como deve de ser. A regra atual é "nunca mais é..." ou "nunca mais chega...". Eu vivo completamente neste sistema, o que, quando consigo parar para refletir, me irrita e incomoda profundamente, pois gera um tremendo estado de ansiedade interior com a qual às vezes tenho alguma dificuldade em lidar e que não é nada saudável. Parece que estou sempre à espera do que vem a seguir e quando abro os olhos já tudo passou. Já era!
   O que será que nos falta para finalmente aprendermos que só se vive uma vez e que agora é tão importante como o que vem a seguir?

Prazo de validade

   Não gosto desesperadamente de flores. Mas gosto de receber uma flor. Não um ramo, uma flor. Gosto de a colocar numa jarra e vê-la ali todos os dias. Mas há uma coisa que me entristece sempre...saber que a cada dia que passa ela cresce para a morte e que mais dia menos dia vai acabar no caixote do lixo.

   Hoje foi o dia do meu girassol deixar de dar cor ao meu quarto. Como é possível deitar ao lixo uma prenda que alguém nos ofereceu com tanto carinho?

   Sempre me custou desfazer-me das coisas, especialmente aquelas que chegaram a mim pelas mãos de alguém. Sou a típica caixinha de recordações, com direito a sentimentos nostálgicos e tudo o mais. Guardo coisas do antigamente, coisas que me marcaram e que marcaram a minha história pessoal. Gosto de recordar. De não apagar o passado. Deve ser por isso que encerro em mim este fascínio pela fotografia. São imagens de momentos vividos que merecem não ser esquecidos, porque não registá-los e guardá-los, para voltarmos a eles sempre que quisermos ou precisarmos? Não nego o passado. Mas não vivo presa a ele. Aprendo com ele. Processo-o e tiro a lição. Vivo para as perspectivas, mas não esqueço a importância dos momentos de retrospectiva. 

   Tudo na vida tem um prazo de validade, é certo. Até aquilo que temos de melhor, as recordações, podem escapar-nos se algum inimigo da memória nos ataca. Será errado querer as coisas perto de nós o máximo de tempo possível? Palavras, gestos, momentos, pessoas, objectos, sabores, cheiros...sabe bem guardá-los. Não importa onde. Basta guardá-los.

   E pensar que tudo isto começou com uma flor que murchou ao fim de 3 semanas de cor e alegria...para uma flor, foi um excelente prazo de validade. Acontece. Com as coisas verdadeiramente importantes.