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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Somos mais do que o dedo que nos apontam

   Enquanto seres humanos todos nós temos muitas falhas. Não há perfeição no aparentemente mais perfeito dos seres humanos e há sempre umas quantas arestas a serem limadas em todos nós, seja em que papel for: filhos, pais, namorados, maridos, esposas, amigos, profissionais, and so on and so far...

   Enquanto seres humanos sabemos também que estamos constantemente (permanentemente?) a ser avaliados; de uma forma mais ou menos formal, mais ou menos oficial, mais ou menos discarada, mais ou menos comprometedora, estamos sempre debaixo do escrutínio dos outros. Alguns de nós vivem melhor que outros com isto, é certo, mas ninguém escapa. 

    Uma das minhas milhentas funções/obrigações enquanto responsável por um centro social e por uma equipa de colaboradores é nunca baixar a guarda da avaliação dos meus colaboradores e estar sempre lá quando é preciso apontar o dedo. Ou pelo menos é isto que esperam de mim. Mas não é isto que eu espero de mim e do meu papel naquele lugar. 

   Os meus colaboradores não são perfeitos. Ok! Tenho alguns excepcionais, magníficos, abençoados e que roçam a perfeição profissional, mas tenho outros que precisariam de crescer profissional, alguns deles crescer muito, mais do que seria esperado e desejado para alguém com aquela idade e aquela experiência profissional. Ora a questão que se impõe é "como é que eu vou dizer a esta pessoa que o que ela faz há anos não está a ser bem feito? Que há ali uma claríssima falta de competências, que aquilo não é suficiente, que eu quero mais...? A resposta é simples: não dizendo! 

   Calma! Vamos pensar: que raio de mudança positiva eu vou conseguir promover numa pessoa se lhe digo que ela é "fraca", que não trabalha como deveria? Exato! Essa mesma! A mudança de humor, de disponibilidade e, acima de tudo, de motivação e valorização pessoal. A negativa sempre foi a pior forma de conseguir qualquer mudança. Ninguém muda forçado, revoltado... a minha regra é simples: não dizer que está a fazer e a ser errado, mas sim explicar como seria fazer e ser correto. Saber calar um "não é assim que se faz" ou um "Você não sabe o que anda aqui a fazer" e deixar sair um "era preferível se fizessemos assim" pode abrir muitas janelas. Pode não ser A solução, pode até não trazer mudança efetiva nenhuma, mas promove uma abordagem positiva de uma situação menos positiva, serena os animos, não menospreza a pessoa e sobretudo não nos dá aquela máscara de "eu é que sei, eu é que mando aqui". 

   Na vossa vida, nas vossas relações, no vosso trabalho, experimentem apontar o dedo não para acusar e/ou ordenar, mas sim para indicar um caminho... um caminho possível...poderá não ser o caminho da pessoa que têm à vossa frente, mas de certeza que lhe darem a oportunidade de saber qual poderá ser o caminho alternativo e ter a alternativa de escolher ir por ele ou não, fará com que toda a gente se sinta melhor. 

 

(E isto porquê agora? Só porque estou no rescaldo das avaliações de desempenho de 2017 da minha equipa e tive de avaliar ao pormenor cada um deles e conversar individualmente com cada um deles sobre a minha avaliação e percebi que aquilo que parece um bicho-papão do "Ai a Dra. está a avaliar-me" pode transformar-se numa fantástica oportunidade de conhecermos melhor as pessoas que trabalham connosco e aprofundarmos relações. Tirando isso, foi uma excelente oportunidade de me levar à completa exaustão mental, emocioanal e psicológica.)

1 de fevereiro 2017

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A 1 de Setembro de 2015 iniciei aquele que foi até hoje o meu maior desafio profissional: o de diretora técnica de um dos nossos centros sociais, felizmente o mais pequeno, apenas com a valência da 3a idade. Os primeiros tempos não foram fáceis para mim: não aceitei bem a mudança, não encarei bem a equipa e fui cheia de receios relativamente ao meus desempenho e ao futuro daquele centro, que estava a passar por uma fase menos boas em termos de ambiente e até financeiramente. Não desisti, adaptei-me, conformei-me e a dada altura percebi que as coisas começavam a rolar e que até se poderia fazer ali um bom trabalho. Com todas as expectativas, o centro cresceu muito, ficamos com casa cheia, passamos do prejuízo a um dos mais lucrativos e eu entreguei-me de alma e coração aquilo. Foi assim que consegui mudar aquele centro, aquela equipa e aqueles idosos. Conseguimos ser equipa, desde a empregada de limpeza até à diretora técnica e isso refletiu-se nos números e nos sorrisos, nossos e dos nossos idosos. Talvez fruto deste sucesso diário, há algum tempo que se manifestava uma vontade da chefia em me dar uma "casa maior". Sim, eu sou ambiciosa, sim eu quero chegar mais longe, sim eu gosto de fazer mais e melhor, mas sinceramente uma ano e três meses não era para mim o tempo suficiente para eu mostrar tudo o que podia fazer por aquele centro. Não agora, que estávamos melhores que nunca, que a equipa estava super motivada e eu completamente absorvida por aquele trabalho, aquele grupo de idosos e familiares e aquela equipa. Criei laços e relações como nunca e nesta área em que trabalho esta é a maior ferramenta de trabalho e de sucesso. Mas já diz o ditado "ano novo, vida nova", só nunca pensei que no meu caso a vida nova chegasse tão cedo. E assim, a 1 de Fevereiro de 2017, volto a aceitar o maior desafio da minha vida profissional: ser diretora técnica de um dos nossos maiores centros sociais, desta vez com uma população que vai dos 6 meses aos 100 anos e uma equipa enorme. É um desafio gigantesco que eu estou a tentar encarar como uma voto de confiança, uma espécie de promoção e uma oportunidade de crescimento pessoal e na minha carreira. Andei não cheguei à parte da aceitação de tudo isto, até porque a mudança aconteceu depressa demais e há todo um luto que preciso de fazer de tudo aquilo que fiz até hoje e de todas as relações que criei e ficaram para trás. Amanhã começo uma nova etapa da minha vida profissional. Vou com medo. Vou. Não tanto de falhar mas mais de não me adaptar, de não me encaixar e de não sentir aquilo como meu. É sempre esse o meu receio nas mudanças: não me sentir bem comigo. Mas vou com fé, com vontade de aprender , com vontade de fazer o melhor. Acima de tudo vou de coração cheio por tudo o que consegui até hoje com o que fiz durante estes cerca de 16meses. Se há coisa que estes dois dias de despedida me deram foi a nítida certeza de dever cumprido. Quer do ponto de vista profissional quer do ponto de vista emocional. Criei afetos durante 16meses e essa foi talvez a minha maior arma. Hoje dói saber o que deixei para trás, mas saber que a minha saída tocou tanta gente é a maior prova de sucesso que eu poderia ter. E agora é confiar. Vergar mas não quebrar e ir.

1 de Setembro de 2016 - um ano depois

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Há um ano atrás iniciei uma nova fase da minha vida profissional. Fui com medo, fui. Fui ansiosa, fui. Fui até algo desiludida e desanimada. Mas fui. Iria assumir a coordenação de um dos nossos centros sociais e isso assustou-me. Se a organização e responsabilidade são o meu forte, mandar não é para mim, não precisava de experimentar para confirmar. Mas experimentei. E rapidamente percebi que para correr bem ia ter de me entregar aquilo de corpo e alma, caso contrário tinha tudo para correr mal, pois iria-me me desiludir comigo acima de tudo. Era o único caminho. Foi o melhor caminho. Em pouco tempo as minhas expectativas foram superadas. Como em tudo na vida entreguei-me às minhas funções, à minha equipa e aos meus idosos, mas acima de tudo conquistei a vontade de "já que aqui estou vou deixar a minha marca". E assim tem sido ao longo deste ano. Tive momentos complicados, tive dificuldades, tive muitas desilusões, tive períodos em que a vontade de desistir foi gigante e assustadora. Tive. Mas tive sobretudo momentos felizes, de conquistas, objectivos cumpridos, sucessos e afetos, muitos afetos. Alimentei-me deles sempre que precisei e o barco continua a navegar. Um ano a liderar uma equipa. O tempo suficiente para confirmar que detesto dar ordens e perceber que "leading by example" é a única forma de liderar que conheço. Porque dizer "vão por ali" pode até ser mais simples e menos desgastante, mas "VAMOS por ali" parece me um caminho mais enriquecedor e, no final, mais positivo. Se eu e a minha equipa ultrapassamos os momentos difíceis foi porque fomos juntas; foi porque deixei o meu porto seguro hierarquicamente revestido para me fazer ao terreno de guerra; fomos juntas, comigo a orientar mas a lutar junto delas. Nunca serei a pessoa nascida para mandar, mas um dia de cada vez vou continuar a aprender e a crescer. Entretanto VAMOS continuar a dar apenas o melhor que temos e sabemos. Por nós e por aqueles que precisam de nós, porque no final de cada dia o que conta é a certeza de que estivemos presentes na vida de alguém que precisou.

Desmistificando mitos: os bairros sociais não são nenhum bicho-papão

   Desde que fui trabalhar para esta instituição, há quase 5 anos, que o grosso do meu trabalho é realizado nos bairros sociais do Porto. Actualmente, o meu centro social fica bem no coração de um dos mais antigos e por ventura problemáticos bairros sociais da cidade. Confesso que quando comecei o meu trabalho tive alguns receios; não me era um ambiente completamente desconhecido, mas era, sem dúvida, um ambiente onde não me sentia totalmente à vontade. Lembro-me de que no meu primeiro dia de trabalho tive uma visita domiciliária para fazer, curiosamente no bairro onde hoje estou diariamente. Fui "abandonada" numa casa desconhecida, num bairro desconhecido e no momento de regressar ao centro, sozinha e a saber que tinha de passar bem pelo meio de uma das zonas problemáticas do bairro, as minhas pernas tremiam. Por coincidência, estava esquecido em casa do cliente que visitei o casaco de uma das nossas colaboradoras e eu vi ali a minha salvação: como os casacos têm bem visível a identificação da instituição, regressei ao centro com ele vestido! Sempre era uma forma de me identificar com a instituição, que é claramente conhecida e respeitada nos locais onde está.  

   Gosto de contar esta história do meu primeiro dia e perceber como as coisas mudaram e em pouquíssimo tempo! Hoje saí para algumas visitas domiciliárias nesse mesmo bairro, que desde Setembro é a minha casa, sozinha, sem casacos, sem qualquer identificação, com total à vontade e perdi a conta ao número de vezes que disse "olá dona X", "bom dia, Sr. Y", "olá", "bom dia". E percebi mais uma vez que o que é assustador e perigoso não são as pessoas ou os locais, mas sim as ideias que construimos sobre as pessoas e os locais. Os bairros sociais do Porto são locais tão agradáveis para se estar como quaiquer outros e as gentes de lá podem ser realmente agradáveis de se conhecer. E chega a um ponto em que não dá para não nos sentirmos parte daquilo. Durante uma boa parte do dia aquele lugar supostamente mau, perigoso, insustentável, é o nosso lugar e é um lugar onde nos sentimos bem. É um lugar que temos o privilégio de conhecer, cheio de pessoas e histórias que nos ensinam o que de melhor e pior há na vida e nisto sim, os bairros sociais são bons: a ensinar-nos que a vida é muito, muito mais, do que aquilo que o nosso mundinho alguma vez poderia imaginar. 

Histórias com gente dentro

   A desumanidade de alguns humanos é coisa que eu nunca vou ser capaz de compreender, por mais que me esforce e por mais que o meu emprego me ponha à prova e me mostre que nisto das relações humanas tudo é possível. A verdade é que apesar de realmente tudo ser possível, nunca estamos preparados emocionalmente para tudo.

   Apesar de enquanto psicóloga apenas eu já ter uma forte ligação com os meus velhinhos, ser coordenadora veio-me trazer toda uma nova perspectiva e responsabilidade sobre eles. E isto nem sempre é fácil de gerir, especialmente quando gostamos do que fazemos e sentimos que estar ali para eles é realmente algo que nos preenche e realiza. O difícil é saber até onde é que vai a minha responsabilidade e quais os limites do meu envolvimento. O difícil é saber dizer "a minha função termina aqui, porque eles são meus clientes e não meus familiares". O difícil é não tomá-los como meus. E o mais difícil é desligar esse botão do "profissional/pessoal" quando sabemos que quando não estamos, não há mais nada para além do abandono e da solidão. O difícil é saber que se eu e a minha equipa não fizermos um esforço diário que por vezes vai para além do tolerável aquela pessoa passa os dias numa cama gelada, humanamente falando, numa casa sem condições, sem atenção, sem cuidados, sem comer, sem afecto, sem visitas. Duro é eu saber que se eu não estiver lá para chamar o INEM ou os receber quando têm alta hospitalar, mais ninguém está. Duro é saber que os serviços sociais contam mais comigo do que com os filhos. Duro é saber que eu faço mais por eles do que um filho. E verdadeiramente duro é eu ter de repetir diariamente para mim própria "eles não são a minha família". Mas para muitos deles, eu e a minha equipa, somos tudo o que eles têm. 

   Não será isto também uma forma de terrorismo, tão grave como qualquer outra? 

Dia Internacional do Idoso

«(…) sabes, rapaz, nós estamos para aqui metidos como animais domésticos, limitados e cheios de necessidade de cuidados, é verdade, e somos de facto parecidos com miúdos, porque vamos ficando atrapalhados das ideias, muito cansados para seguir com as coisas todas, e confundimo-nos constantemente, fazendo asneiras que não se esperam de adultos, mas somos, sobretudo quando estamos sossegadamente sentados, adultos, e metemos cá dentro da cabeça uma experiência de uma vida inteira que já viu de tanta coisa. Às vezes, avançando já a parte da senilidade a que vamos sucumbindo, podias aproveitar um pouco mais a nossa amizade, porque estamos a anos-luz da tua idade, mas temos um passado que é genericamente o teu presente e o teu futuro (…)» (Valter Hugo Mãe, “A máquina de fazer espanhóis”)

Hoje, como nunca antes, vivemos mais. A esperança média de vida para cada um de nós parece não parar de crescer, com todas as implicações positivas e negativas que isso acarreta. Como vivemos mais, envelhecemos mais e durante mais tempo. O processo de envelhecimento é universal, gradual e irreversível, referindo-se a um conjunto de mudanças e transformações que ocorrem com a passagem do tempo. Começamos a envelhecer no dia em que nascemos e enquanto a vida nos sorri, desejamos poder continuar a envelhecer por muitos e muitos anos. Envelhecer é bom, desde que seja um envelhecimento feliz. Quem não gostaria de chegar aos 100 anos cheio de vitalidade, saúde e vontade de envelhecer ainda mais? Infelizmente, envelhecer e ser velho (termo que utilizo com todo o respeito e humanidade que dedico aos nossos “mais velhos”) nem sempre é uma experiência feliz.

O número de pessoas ditas idosas não para de crescer e diariamente nos questionamos e preocupamos com as consequências destes números. É preciso cuidar dos nossos velhos, dizem os entendidos, e cada vez mais parece ser uma realidade que este país não é para velhos. Questionar o muito ou pouco que se faz pelos mais idosos não é a minha função ou pretensão, mas enquanto técnica e sobretudo enquanto pessoa que respeita e admira os nossos velhos, preocupa-me, mais do que o saber cuidar, o querer olhar por eles e para eles, dignificando-os, humanizando-os, respeitando-os e dando-lhes atenção, afecto e, porque não, amor. Preocupam-me aqueles que envelhecem sozinhos, abandonados ou negligenciados, como se por estarem na última etapa das suas vidas não merecessem tudo aquilo que um ser humano merece. Uma sociedade que esquece os mais velhos não é uma sociedade da qual nos devemos orgulhar de fazer parte. Fazer do envelhecimento uma história com um final feliz está nas mãos de todos nós que convivemos diariamente com esta realidade, seja nas nossas casas, seja no nosso trabalho. Tempo (de vida) é aquilo que lhes parece escapar entre as mãos e, por isso, tempo é o que temos de lhes dar. Tempo para estarmos lá e os ouvirmos; ouvirmos as suas histórias repetidas até à exaustão, as suas experiências, as suas preocupações, os seus medos, os seus desejos, se é que ainda lhes é permitido esperar algo mais da vida, as suas queixas, ainda que sem fundamento, as suas birras, as suas cismas, as suas constantes chamadas de atenção.

«(…) afinal, estamos velhos e temos de morrer, um primeiro e outro depois e está tudo muito bem. Sorriem, umas palmadinhas nas costas, devagar que é velhinho, e depois vão-se embora para casa a esquecerem as coisas mais aborrecidas do dia. Onde ficamos nós, os velhinhos, uma gelatina de carne a amargar como para lá dos prazos.»

(Valter Hugo Mãe, “A máquina de fazer espanhóis”).

Numa época de frenesim e minutos contados, onde ficam afinal os velhinhos? Numa impessoal cama de hospital durante dias intermináveis após a alta clínica? Na solidão das suas casas? Depositados num lar que nunca será o seu verdadeiro Lar? E nós, qual o nosso papel? Já sabemos que não podemos mudar o mundo, por maior que seja a nossa vontade. Mas o que às vezes nos esquecemos é que podemos fazer realmente a diferença no pequeno mundo de alguém que já viveu tanto que julga que agora não pode pedir nada mais que a solidão de um sofá ou de uma cama onde os dias se arrastam sem significado a caminho de uma morte que parecem desejar mais do que tudo, porque afinal já perderam mesmo tudo.

Na nossa vida e no nosso trabalho com os idosos deixo-vos um novo ideal: não chega sorrir-lhes; vamos arrancar a cada um deles, todos os dias, um sorriso. Eu sei que todos nós somos capazes de o fazer. Por eles e por nós. Porque afinal, os idosos de amanhã somos nós.

 

Histórias com gente dentro

   Quando nos ligam com um pedido de apoio domiciliário nunca sabemos muito bem o que vamos encontrar quando fazemos a primeira visita domiciliária. Eu vou sem expectativas nenhumas e pronta para qualquer cenário. Mas mesmo assim, a vida consegue ser cruel e dar-nos verdadeiras estaladas na cara. Ontem foi um desses dias. 

   Fiz a primeira visita à Sra. T., que me ligou na sexta-feira a pedir apoio domiciliário para higiene pessoal e almoço devido a problemas de saúde. Raramente pergunto a idade neste primeiro contacto telefónico e por isso esse foi o primeiro de muitos estalos que recebi. A Sra. T. tem 47 anos. Até 2008/2009 vivia uma vida estável, com emprego, marido, casa própria e uma filhota a caminho. Até que ficou desempregada. A filha nasceu. O marido ficou desempregado. No desespero financeiro fez de tudo um pouco para ganhar algum dinheiro. Um dia, há cerca de 3 anos, deu uma queda numas escadas. O pé direito falhou-lhe, perdeu a força e caiu. Fracturou um ombro mas nada que não se curasse. Passado um tempo, voltou a cair. Mais uma perda de força no pé. E os sintomas começaram a aparecer. Alguma coisa não estava bem. O diagnóstico foi dos mais cruéis que um ser humano jovem, com uma filha para criar e toda uma vida para viver pode receber: esclerose lateral amiotrófica (ELA). Em 2 anos, a Sra. T. perdeu todos os empregos, perdeu a casa, perdeu a vida, os sonhos e a esperança. O mundo desabou em cima dela. Em menos de 2 anos perdeu toda a mobilidade dos membros inferiores, os superiores começam a ressentir-se e a fala já não é perfeita. Hoje vive com a mãe, com diversos problemas de saúde, numa casa camarária. Passa os seus dias numa cadeira de rodas e são o marido e a filha de 7 anos, que é capaz de nos relatar todo o historial clínico da mãe, que a auxiliam em todas as actividades de vida diária.

   Aos 47 anos, T. está dependente de terceiros para tudo. Aos 47 anos, T. trava uma batalha infernal que sabe que não vencerá. Aos 47 anos, T. já não tem vida e não pode sonhar ou sequer acreditar no amanhã, porque T. sabe, aos 47 anos, que amanhã só pode ser pior que hoje, que o futuro que existe será tão dolorosa que, com toda a certeza, preferiria não o viver. Ou sobreviver. Aos 47 anos, T. percebe melhor que ninguém que esta vida é uma passagem e que para algumas pessoas, é uma passagem demasiado curta, demasiado dolorosa, demasiado vazia de vida. 

 

1 de Setembro 2015 - a mudança

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imagem roubada do facebook de "as9nomeublog"

   É hoje.

   Oficialmente, coordenadora de um dos nossos centros sociais.

   A palavra de ordem é apenas uma: gestão. De equipas, de trabalho, de dinheiro, de idosos, de actividades, de processos, de papelada, de problemas, de stresses, de sucessos, de alegrias...

   É isto e calma. Muita calma.

   Respira fundo. Vai.

 

Em pré-época

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imagem roubado do facebook de "às9nomeublog"

    As despedidas estão feitas. Foram feitas. Todas. Coração ao alto. Ou ao lado. Foi difícil. Foi. Mas todas as palavras que recebi foram de carinho e de certa forma de amor. Aquela espécie de amor que uma profissão que nos obriga a trazer vidas dentro de nós nos ensina.

   Esta semana é uma espécie de "pré-epoca" para o meu novo cargo. Apesar de a mudança oficial ser a 1 de Setembro, esta semana será já toda passada no meu novo espaço, com a minha nova equipa, os meus novos idosos, os muitos desafios que se colocarão... A "casa-mãe" é a mesma, mas tudo é novo para mim. As mudanças podem ser boas e esta terá de ser boa. Entretanto levo comigo todos aqueles que tanto me deram até hoje e sei que, tal como todos prometeram, tenho muitos a torcerem por mim, até a rezarem por mim! O que posso pedir mais?? Só isto. E força.

Dos meus dias difíceis

   Nunca equacionei realizar o meu trabalho de psicóloga sem criar relações/ligações com as pessoas que encontro. Já aqui escrevi sobre isso noutra altura e nesta fase profissional em que me encontro percebo mais do que nunca que essa era, apesar de tudo e de todas as indicações para fazer precisamente o contrário, a única forma de fazer o meu trabalho bem feito. 

   O ser humano vive de relações e ligações. Muitas das pessoas junto das quais exerço as minhas funções não têm uma rede social ou de ligações forte. Muitas não têm sequer qualquer tipo de relações para além das que estabelecem com as pessoas que lhes prestam algum serviço. Durante este 4 anos e meio de trabalho na instituição enquanto psicóloga criei relações com muitas pessoas, especialmente idosos, que hoje sei que eram relações verdadeiras e fortes. Nesta altura de mudança de funções, interromper essas relações é um imperativo. Comunicar a quem se habitou a ver-me como um membro da família e alguém em quem podiam confiar o que muitas vezes não confiavam a mais ninguém que vão deixar de me ter tem sido duríssimo. Ver nos olhos dos que acompanho que já sentem a minha falta, que ficam decepcionados, tristes, alguns até mesmo chateados, é algo que difícil de gerir interiormente. Mas é também a prova de que estava a fazer o meu trabalho da melhor forma possível; que dei o melhor de mim, que dei muito de mim, mas que não me arrependo. Não podia ser de outra maneira. Não podia ser com outra intensidade. Estive lá para eles. Não sempre que eles precisavam, mas estive muitas vezes. E é por isso que é tristeza que eu vejo nos olhos deles por estes dias. Mas também é por isso que todos eles, sem excepção, me dão os parabéns, me desejam o melhor deste mundo e do outro em sucesso e felicidade e transmitem a sua alegria por me verem "subir de posto". 

   Criar relações também é isto. Também é ficarmos tristes e felizes ao mesmo tempo com uma mudança e transmitirmos isso ao outro. Ser psicóloga é isto. É dar uma parte de nós ao outro que precisa; é ficar com uma parte do outro em nós; é criar uma ligação que quando tem de levar um ponto-e-vírgula (porque eu não gosto de pontos finais, muito menos parágrafos) que nos deixa o coração e a alma duplamente apertadinhos: de tristeza pelos que deixamos e de alegria por levarmos cá dentro tanto de tantos, com a certeza de termos feito a diferença na vida de alguém. E a mim, é isso que me move.