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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Estou velho

Não resisti mais. Ela sentiu isso, viu os meus olhos húmidos de lágrimas e só então deve ter descoberto que eu já não era o que fui e sustentei-lhe o olhar com uma coragem de que nunca me julguei capaz. Estou velho disse-lhe. Já estamos, suspirou ela. O que se passa é que não o sentimos por dentro, mas por fora toda a gente vê.

Gabriel García Márquez, "Memória das minhas putas tristes"

A apagar a velhice

Os bombeiros deveriam andar a combater o fogo, o elemento de Heráclito. Em vez disso, lutam contra o tempo. Uma luta quimérica. Para combatero fogo usam o seu grande inimigo, a água, mas para combater o tempo só têm uma maca, um medidor de tensão e uma garrafa de oxigénio. E, claro, os velhos continuam a morrer. Os bombeiros deveriam ter mangueiras a deitar juventude, deveriam andar a apagar a velhice.

"Jesus Cristo bebia cerveja", Afonso Cruz

Histórias com gente dentro (ou o sermos tudo na vida de alguém)

   Se há coisa que o nosso projecto de voluntariado da instituição veio mostrar é que a solidão é provavelmente a maior doença dos nossos tempos e é uma doença que afecta um número assustador de pessoas que não têm ninguém e que se estende até nós que, diariamente, lidamos com a solidão dos outros,  que passa a ser também um bocadinho nossa. 

   Quando temos de dizer coisas como "coma a sopa toda, porque agora só cá vimos dar-lhe de comer amanhã" ou "deixe pôr a fralda direitinha porque est tem de aguentar até amanhã" ou ainda "agora não abra a porta a ninguém,  porque ja cá não vem mais ninguém que a senhora conheça", estamos, ainda que sem querer, a arrancar pedacinhos da nossa alma e a relembrar a alguém que está neste mundo invariavelmente só.  Fazemo-lo inconscientemente,  sim, mas estamos a materializar em palavras um sofrimento incomensurável,  desumano e nunca completamente perceptível para nós que, egoista mas também humanamente, queremos "despachar o serviço a horas" para podermos finalmente regressar aos nossos lares ou onde quer que seja, pois sabemos que, seja a que hora for, temos alguém à nossa espera. 

   Nós temos alguém à nossa espera. Eles esperam por nós a cada minuto que passa, pois sabem que aquela porta só se abre 3 ou 4 vezes ao dia, se tanto, para nos deixar entrar e, ainda que com tempo contado, somos nós e apenas nós que lhes preenchemos os dias. E são eles, com a sua solidão,  que nos preenchem o coração e alma com aquelas coisas da realidade que nos fazem crescer e nos tornam...humanos...

Histórias com gente dentro

 

   A frieza, distanciamento e ausência de sentimentos com que algumas famílias (que nem merecem esse nome) tratam os seus (que acabam por ser mais nossos) idosos é das coisas que mais me revolta no meu trabalho diário, embora já não seja a que mais me perturba ou choca. Quase diariamente me deparo com exemplos vergonhosos que me fazem questionar até onde o ser humano é capaz de ir na sua indeferença. A solidão em que muitos idosos são deixados é uma das coisas que mais confusão me faz, por um lado porque me põe a pensar no meu dia de amanhã e na possibilidade de também eu acabar só e depois porque sei que é talvez aquilo que mais sofrimento causa a um idoso e que, isso sim, os mata aos poucos. Quando a solidão roça os limites do abandono (porque há alguma que é quase obrigatória, quando não existe mesmo retaguarda familiar), esse morrer aos poucos acaba por passar também para nós.

   Esta semana passei por uma situação que posso quase rotular de experiência sobrenatural, pois nunca pensei que neste mundo tal fosse capaz de acontecer. Ao chegarmos a um dos nossos idosos, acamado há alguns anos, para lhe administrarmos o almoço, encontramos o senhor morto. Depois do choque inicial e perfeitamente natural, toca a fazer o mais difícil: avisar a família. Quando pegamos num telefone para dizer a uma filha: "lamento imenso estar-lhe a dar esta notícia, mas o seu pai faleceu", esperamos todas as reações, menos esta "ah, mas eu agora não posso ir aí, e o meu irmão também está a trabalhar só consegue passar aí em casa lá para meio da tarde; tratem vocês do assunto".

   Onde fica a emoção, a dor de ter perdido um pai, que morreu sozinho numa casa abandonada de vida e afectos?

   Onde fica o nosso coração, o nosso lado humano, os nossos sentimentos?

   São coisas que ainda me deixam sem palavras e assustada relativamente a esta estranha forma de vida que a humanidade do nosso tempo demonstra.

"Quem acolhe os idosos, acolhe a vida"

  “Quando a vida se torna frágil, nos anos da velhice, não perde o seu valor e a sua dignidade: cada um de nós, em qualquer etapa da existência, é querido, é amado por Deus, cada um é importante e necessário."

(cfr Homilia pelo início do Ministério Petrino, 24 de abril de 2005, Papa Bento XVI)

 

 Hoje é dia do Idoso. Mas não é, nem de hoje, que eu me lembro deles ou sinto vontade de lhes prestar uma merecida homenagem. Para mim, os idosos são o melhor do mundo, porque são aquelas pessoas que já viveram tanto e quase tudo e que, por isso, são uma fonte inesgotável de lições, conhecimentos e experiências de vida. Um idoso é uma pessoa tão cheia de tudo que quem tem a sorte de conviver com eles diariamente, ainda que em trabalho, estará, provavelmente, a passar por uma das experiências mais completas e mais gratificantes da sua vida. Se, para uns, não há nada como um sorriso na cara de uma criança, para mim, não há nada, absolutamente nada, como um sorriso na cara de um velhinho, principalmente quando a maior parte das vezes tudo o que temos de fazer para o conseguir é sorrir-lhes, tocar-lhes e dirigir-lhes um simples "olá, como está?".

Histórias com gente dentro...e recordar é viver...

   Há pessoas que têm uma forma fantástica de viver a vida. Todos nós já ouvimos falar delas e alguns até já tivemos o prazer de conhecer e conviver com exemplos destes. Quando a velhice chega e a solidão nos ataca, fica mais difícil continuarmos a ser essas forças da natureza, até porque já perdemos muito daquilo que se pode e antes chamavamos vida e viver. É a solidão, é a perda de quem nos é mais querido, é a doença, é a perda de capacidades, é a perda de autonomia...é uma lista interminável de perdas que nos fazem sentir cada vez menos vivos. Quando a velhice chega, passamos a viver de memórias e recordações, o que não é fácil para muita gente, pois nem todos sabemos lidar pacificamente com o que já foi e não voltará nunca mais a ser. 

   Mas se, chegada determinada fase da nossa vida, a recordação é tudo o que temos, porque não compilar, literalmente, todas as recordações que temos daquilo que foi o nosso viver?

   Ontem fui visitar novamente o Sr. A.M.B. 96 anos, viúvo há cerca de 4, daqueles que teve apenas uma companheira para a vida e que vai chorar a sua morte até ao fim dos seus dias, vive sozinho, tem uma filha muito presente, o filho morreu no ultramar, mais um desgosto que nunca ultrapassará, autónomo, independente, mentalmente activo, intelectualmente desafiante, daquelas pessoas com quem dá gosto conversar tamanho é o desafio e o interesse das nossas conversas. O Sr. A.M.B. teve uma vida cheia, cheíssima! Cheia de gentes, de momentos, de festas, de experiências, de estudos, de exposições, de trabalhos congratulados até com menções honrosas...O Sr. A.M.B. teve uma vida que qualquer um gostaria de ter vivido. Hoje a sua vida está vazia de experiências e de gentes, que já morreram na sua maioria, mas cheia, cheíssima de recordações. Recordações essas que ele está, literalmente, a compilar, em verdadeiros albúns de recordações. 

   Primeiro foram as fotografias, de que sempre tanto gostou. Após a morte da esposa começou a construir um álbum com fotografias da esposa ao longo de toda a vida, desde bebé até aos últimos retratos de quando ela ainda não estava doente (não é com a doença que ele quer continuar a recordá-la). Desse álbum passsou para um albúm sobre o filho falecido cedo demais, depois a filha, depois um albúm familiar...e fomos passando longas horas de conversa à volta daqueles albúns, daquelas fotografias e das histórias tão cheias que cada fotografia contém.

   Agora que as fotografias começam a esgotar-se, resolveu passar para recordações do seu trabalho. Mais fotografias dos seus excelentes trabalhos, das suas exposições, ao que se juntam críticas em jornais, menções, opiniões, cartas de amigos...foi esta a nossa viagem de ontem.

   Para mim, este é um excelente exemplo de saber viver a vida quando a vida já tem pouco para nos dar. Não é viver no passado, nem do passado. É viver recordando o que já vivemos, o que já fomos, quem já tivemos, o que já tivemos...é acabar a vida cheios da vida que nos encheu os dias, é viver recordando e já dizia o outro que recordar é viver...e de que maneira, e de que maneira!

"Vivi, confesso que vivi..."

   Hoje conheci a Sra. C., que começou esta semana a frequentar um dos nossos centros de dia. Esta poderia ser apenas mais uma utente, já vem até ao centro de dia para evitar passar tanto tempo sozinha em casa. Até aqui tudo normal. Tudo normal até nos sentarmos a conversar com a Sra. C. e nem darmos pelas horas passar (sim, horas!).

   Assim que me sentei e me apresentei e trocamos as primeiras palavras, pressenti que aquela não ia ser mais uma daquelas conversas típicas da velhice que passam sempre pela doença, pela solidão e pela tristeza por tanto sofrimento. A Sra. C., dona de uns lindos olhos azuis mar, foi confrontada há pouco mais de 2 meses com um diagnóstico de cancro do pulmão num estado avançadíssimo, daqueles que não deixam muito espaço à esperança. Ainda assim, a Sra. C. não desmoralizou. Foi à luta, está na luta, e aceitou realizar algumas sessões de quimioterapia a título quase experimental, não porque acredite no milagre da cura, mas porque talvez se consiga "trancar" o cancro, porque ela gostava de viver mais alguns anos, "na minha casa, com as minhas coisas e a minha vida". Não há tristeza na sua voz, não há o "ai meu deus, porquê me tinha de acontecer isto a mim", não há o medo de partir. Há a vontade de continuar a viver, porque gosta de viver, de cá andar. E de dançar. Adora dançar. E as suas palavras parecem que nos envolvem ali numa dança quase perfeita, guiados por alguém que já viveu tanto e que agora, nisto que podem ser os seus últimos momentos, nos diz, mais que uma vez: "mas eu vivi, vivi muito. E vivi exatamente a vida que queria, tive tudo o que de bom a vida me podia dar e também coisas muito más que me ensinaram a viver e continuar sempre a lutar". E os seus olhos transmitem precisamente este estado de plenitude com a vida, que nem sempre foi boa, mas que soube sempre transformar numa vida cheia. Não foi uma boa vida, não foi uma vida fácil, mas foi uma vida que soube levar de tal forma que nunca, por uma só vez, lamentou o que quer que fosse.

   À despedida, e para que não ficassem dúvidas: "a minha maior asneira foi ter fumado desde os 15 anos até há 2 anos atrás. Agora estou a pagar por isso. Mas acredite que vivi uma vida cheia de vida. Foi a vida que sempre desejei". À saída, a promessa de voltarmos a conversar na próxima semana, mas desta vez "só lhe vou contar sobre as minhas malandrices".

   Há pessoas fantásticas neste mundo e eu tenho tido a oportunidade de conhecer tantos exemplos, que cada vez percebo melhor o porquê de ter a profissão que tenho.

De um velho para os jovens

«(...) sabes, rapaz, nós estamos para aqui metidos como animais domésticos, limitados e cheios de necessidade de cuidados, é verdade, e somos de facto parecido com miúdos, porque vamos ficando atrapalhados das ideias, muito cansados para seguir com as coisas todas, e confundimo-nos constantemente, fazendo asneiras que não se esperam de adultos, mas somos, sobretudo quando estamos sossegadamente sentados, adultos, e metemos cá dentro da cabeça uma experiência de uma vida inteira que já viu de tanta coisa. Às vezes, avançando já a parte da senilidade a que vamos sucumbindo, podias aproveitar um pouco mais a nossa amizade, porque estamos a anos-luz da tua idade, mas temos um passado que é genericamente o teu presente e o teu futuro.»

"A máquina de fazer espanhóis", Valter Hugo Mãe

Os velhinhos...(provavelmente, o melhor testemunho brutal da velhice)

«Como faria falta ferrarmos toda a gente e vingarmo-nos do mundo por manter as primaveras e a subitamente estúpida variedade das espécies e as manifestações do mar e a expectativa do calor e a extensão dos campos e as putas das flores e das arvorezinhas cheias de passarinhos cantantes aos quais deviamos torcer o pescoço para nunca mais interferirem com as nossas feridas profundas. Que se fodam. Que se fodam os discursos de falsa preocupação dessa gente que sorri diante de nós mas que pensa que é assim mesmo, afinal estamos velhos e temos de morrer, um primeiro e o outro depois e está tudo muito bem. Sorriem, umas palmadinhas nas costas, devagar que é velhinho, e depois vão-se embora para casa a esquecerem as coisas mais aborrecidas dos dias. Onde ficamos nós, os velhinhos, uma gelatina de carne a amargar como para lá dos prazos. Que ódio tão profundo nos nasce. Como incrivelmente nos nasce alguma coisa num tempo que já supúnhamos tão estéril.»

"A máquina de fazer espanhóis", Valter Hugo Mãe 

Na solidão da velhice

«A velhice extrema, pensei, ou é uma decadência sem sentido ou uma inconsciência sem explicação. Eis um homem que viu morrer ou desaparecer quase todos à sua volta; que sabe que vai morrer em breve; que vive sozinho numa terra onde já ninguém mais vive e que tem, como companhias mais próximas de um ser humano, um cachorro, as galinhas que cria para matar quando precisa de comer, um porco e um peru qye engorda paras as minhas visitas. E, todavia, está preso às notícias de um mundo que desconhece, onde jamais viverá e que não deve fazer sentido algum para ele!»

"Madrugada suja", Miguel Sousa Tavares