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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Vida de músico - reflexão de quem ficou revoltada a conversar com um

   Na semana passada o vocalista de um conjunto de música popular portuguesa relativamente conhecido foi animar a tarde dos nossos idosos. Após a sua actuação que, como sempre, os idosos adoraram, estive um pouco à conversa com o dito senhor sobre o que é e como é essa vida de "conjunto musical" em Portugal. Começa ele por dizer que as pessoas pensam que esta vida tem glamour e a invejam e logo aqui eu percebi que não ia tirar grandes frutos daquela conversa. Que glamour poderá ter a vida de um cantor pimba que provavelmente nem metade do país conhece? Mas entre outras pérolas do senhor, que posso afirmar com toda a convicção tem a mania que é o maior artista do pedaço, o que mais me custou foi ouvir o discurso de "coitadinho" que fez ao relatar uma semana normal de espectáculos. Ora são 3000 euros por espectáculo (a dividir por toda a banda, eu sei!) e o valor não é negociável "como as outras banditas o fazem", citando; começam normalmente à quarta ou quinta-feira e terminam ao domingo. Vão pela estrada fora, fazem o espectáculo, arrumam as tralhas, fazem-se à estrada porque quase sempre vêm dormir a casa, levantam-se no dia seguinte por voltas das 13, 14h, citando, comem, arranjam-se e o esquema repete-se neste e nos dias seguintes. Foi o "vocês não imaginam como esta vida é agressiva e difícil" que me pôs em chamas. Vida agressiva e difícil? Ok, até podem fazer muitos quilometros em viagens e passam muito tempo fora de casa mas a profissão que têm não é, de todo, agressiva e difícil. Agressivo e difícil é trabalhar de sol a sol por menos do salário mínimo nacional, é ter responsabilidades verdadeiras e sérias, é ter compromissos, horários a cumprir, chefes a pressionarem, objectivos a cumprir; agressivo e difícil é ver a pressão dos números, é ter pessoas que dependem de nós, é saber que falhar é muito mais do que me esquecer da letra de uma música. Agressivo e difícil é fazer quilómetros para ir trabalhar de manhã à noite e precisar de meses, muitos meses, para trazer 3000 euros para casa. Agressivo e difícil é ter a vida pessoal e profissional misturadas, porque a teorias são bonitas, mas há profissões que estão em nós 24h por dia e isto não significa passar o dia a cantarolar fora de um palco. 

   Eu sei que nem todos nascemos para o mesmo. Eu sei que todas as profissões são precisas. Eu sei que haver gente disposta a cantar e tocar para animar outra gente é preciso e fundamental. Eu sei que lá porque eu não gosto deste tipo de música não posso sair por aí abater quem vive disto. Mas o que eu também sei é que a vida real é bem mais dura do que qualquer música a cante. Bem mais. E há vidas reais, demasiadas vidas que são realmente agressivas e difíceis. A deste senhor, profissionalmente falando, não pode ser uma delas.